Feliz. Feliz pra caralho. E morto, morto como nunca. Às quatro da tarde de ontem bebia a primeira gelada, acampado na casa de meu cunhado também tricolor pra ver o Fla-Flu decisivo. Vitória nossa, partimos pro (fechado e lotado) Triângulo das Bermudas. Lá, com a fitinha cassete da Rádio Globo reproduzindo a cada cinco minutos os gols (tricolores, claro) do clássico, buscamos outros paraísos artificiais. Do líquido ao pó foi um pulo. E pulo dei pra saltar as grades de minha casa e alcançar a minha cama. Como disse, morto mas feliz. Não têm sido de calmaria meus tempos recentes. Este ano levou ao topo todos os excessos. São novos parâmetros de loucura e despirocação deslavada. O contato com a cocaína, sem dúvida, exacerbou a porralouquice em Guarapari. Coca em quantidades estúpidas, digo. Cheirada, esfregada nas gengivas, lambida. Dentro de carros, dentro de casas, em banheiros esculhambados. Idas regulares aos pontos boqueiros, buchinhas dispensadas na tensão pré-blitz, correria para recuperá-las pelo alarme falso. E toda barafunda possui o seu ápice. E este se deu (percebam, havia de ser lá, por tudo) em meu apê. O apartamento vivo, aquele do sexo pra lá de inseguro, dos vômitos da janela, do compartilhar do cálice sagrado, da quase morte-suicídio (conto depois, relaxem). Noite-madrugada no Laricão – um bar que já é história, um clássico boêmio instantâneo -, roxinhos (fanta uva, gelo, rum e limão) em quantidade (sete, copo fundo, por favor. Brigadú!, Léo Gordo!), um maço de cigarros por conta própria e gritos lancinantes de histeria alcoólica, tudo buscando o único braço navegável neste rio maluco: doses maciças do mefistofélico pó branco, generosas trouxas de maconha, uma garrafa de conhaque, maços/maços/maços de tabaco e latas/garrafas da santa loura. Sete almas em um quarto de porta cerrada, som-barulho e vento litorâneo chegando manso. “Dois de vinte”, disse F.; “Dois de vinte o quê, mermão?”, perguntei incrédulo e marrento; “Dois papéis de vinte. Vinte pra gente, vinte pra minha tia. Encomenda familiar, manja?”, respondeu de pronto. Bem, pensei na hora que um de vinte já seria mais do que o recomendável, somando toda a bagaça. Tampa de vidro, cartão, caneta e rolo de nota. Trabalho duro. Vinte nas cabeças e nova visita ao bairro do brilho? E os vintinho da titia? Por que não esticá-los e depois conversar com a dona? Não precisei completar a frase. Mais um papelote de vinte de cocaína correria narebas acima. Garrafas secas e bocas amarradas, desço pra acompanhar o resto da rapaziada em sua partida e retorno pro... Sono porra nenhuma! Bate a nóia, pego a carteira e, ainda com a roupa da esbórnia, parto com meu Millezinho pra Vitória, casa dos velhos, abrigo bacana. Chego em um sábado de sol firme, surpresa total. Minha mãe logo pergunta a razão da chegada repentina. Disfarço, recomponho-me e digo que dormir em casa é o melhor desde sempre. Sei que ela sentiu algo diferente. Conversaremos sobre tudo, no tempo certo. E levei duas horas pra acomodar-me e atingir o repouso. A coca, o conhaque, a cerveja, a marijuana e o segundo maço de Hollywood finalmente sossegavam. Meu corpo já não era meu templo.
Guarapari não começou há pouco para mim. Freqüento o balneário desde 79, quando da mudança de minha família para estas terras. Mas 86 marcou a primeira mudança significativa em minha relação com a cidade. O apartamento adquirido por meus pais estabeleceu a base ideal para os rocks veranistas e feriadeiros. No entanto, permaneci um visitante até o ano de 89. Lá, ao iniciar o namoro com uma colega de classe da UVV - que duraria cinco anos -, estabeleci-me por aquelas plagas. E iniciei uma série de amizades que me renderia alegrias (muitas) e decepções (algumas), com as portas escancaradas de um novo mundo.
As coisas foram bem, muito bem nos dois anos e meio iniciais. Noites eternas, furiosas, dilacerantes até. Amor, paixão e solidariedade em um mesmo fervente caldeirão. Visceral, pra usar uma palavrinha fácil e exata. Incrível como um local assume feições místicas quando nele você se embrenha com gosto e vontade. E tudo funcionando como um providencial descanso mental-espiritual dos ritos roqueiros de Vitória e Vila Velha. Precisava de um amor, e ele veio. Precisava de amizades zeradas, e elas chegaram com força. Nada veio por acaso, acredito. Ainda hoje acredito.
1992 deu no meio de minha lata, em um prólogo assustador da ressaca que se aproximava. A passagem de ano corria bem, ainda que estar na virada em um engarrafamento na Praia do Morro estivesse por completo fora de nosso planejamento. Tudo ok, vale a festa, a garrafa estourada, os abraços na turma e o beijo na boca de quem amo. Ela não quis, entretanto, esticar até a Lua Azul. Cedeu-me o carro de seu pai e então partimos, eu e seu primo, para o encontro com a galera que havia se espalhado por todos os cantos. Tumulto pra entrar, gente por demais para o espaço. Algumas cotoveladas e estabelecemos a base no deck da boate. Serginho, brother nosso que curtia a fossa de um namoro há pouco encerrado (com a irmã de outro irmão, Dudu), multiplicava as miniaturas de garrafas de uísque que brotavam de seus bolsos. Uma catarse pessoal especial (dele) e coletiva (do resto da plebe). Foi espetacular. E não acabaria assim. Logo iniciaria, tal qual a personagem de Mickey Rourke em “Coração Satânico”, minha descida mais profunda ao inferno. Do qual sairia por completo somente quatro anos depois.
Ronney (o primo de minha namorada) me pega pelo braço e fala, esbaforido: “Caio, deu merda! Serginho saiu daqui voando, transtornado”. Digo a ele que corra lá pra fora e não o deixe pegar o carro, enquanto parto pra pista de dança pra dar o alerta. Não rolou. Serginho já havia partido. Sem notícias, sem celulares, sem pistas, continuamos na boate, e amanheci na areia da Praia dos Namorados, sem camisa, sol na cara, de frente pro morro do Guarapari Center. Desconhecia o que aquele point me reservara.
Vou pra casa cambaleante, jogo-me na cama de casal e sou despertado logo depois por minha irmã, que dizia estar na linha a minha namorada, tensa. Ressacado e zonzo, ainda assim pensei logo em Sérgio. Batata. Ela logo soltou a notícia: ele morrera há poucas horas. Caíra (ou jogara-se de lá com ele, nunca saberemos) com seu carro do maldito morro, acelerando-o até que fosse rompido o último e pequeno obstáculo na direção das pedras da praia. Naquela tarde seria velado na casa de seus pais. Não quis sequer olhá-lo no caixão. Parte de minha adolescência havia partido.
Foram seis meses de cão. Formado nas duas faculdades que acabara de cursar há menos de um mês, olhava para a frente não com a expectativa esperada. O peito doía, e mesmo a presença constante de minha namorada não abafava a dor aguda. Sem emprego e com a ausência de Serginho, a depressão arrebentou a minha estrutura, já desgastada pelos rocks que não cessaram em todo o ano de 91. Apartamento lotado, farra todos os dias da semana, nenhuma hora pra encerrá-las e inconseqüência ampla, geral e irrestrita. Posso contabilizar um mínimo de trinta festas e churrascos, deixando de lado as reuniões de menor porte. Falo apenas do apartamento. Nas ruas, a quebradeira seguia o mesmo ritmo. Era o começo da virada em meu namoro, que duraria ainda dois anos. A boêmia venceria, afinal.
Voltando ao abissal 1992, o trabalho como professor substituto na faculdade de Guarapari e na UVV me ajudaria a passar pela tormenta. Aprendi, da pior e única maneira possível, que a depressão não é uma frescura, um capricho, um estado de inércia. Depressão é muito mais, é porrada e independe de uma simples força de vontade para a sua superação. Quis morrer, e queria realmente que alguma coisa me levasse. Não havia sorriso, sexo, bebida ou amizade que me bastasse. Foi um teste de sobrevivência, e hoje percebo isto claramente. Uma merda daquelas.
Saindo do estrago causado pelos excessos e pela morte de Serginho, bem, voltei aos excessos. Até 94, as coisas partiriam para um nível estratosférico de lesações, porradarias, acidentes automobilísticos...
Acidentes automobilísticos...
De dois escapei, já um veterano de estragos em carros (dos dezesseis anos até então, batera com relativa gravidade duas vezes, e uma montanha de outras com menor impacto). No primeiro deles, em dezembro de 92, voltava de um bar-boate em Meaípe acompanhado de dois brothers, dirigindo o Millezinho de meu pai. Bêbado e com a estrada molhada, tentei fugir de um pedaço de madeira no meio da pista, joguei para um lado, derrapei, fui barranco abaixo e parei somente no lamaçal, o carro de frente para a rodovia, o fundo projetado e apenas a segunda marcha disponível. Sujando-nos e com a ajuda de um conhecido que por ali passava e buscou no centro uma corda, tartarugueamos até a casa de um amigo. Ligação feita pra casa, meu pai atento responde, calmo: “Velho, tenho duas notícias: a melhor, primeiro: o carro era (e é) o teu presente de aniversário; a pior (em termos): cuide dele e acione o seguro, bancando a franquia. Hora de assumir essa responsabilidade”. Ele estava coberto de razão.
No segundo, o negócio azedou. Vinha de uma farra na casa de amigos, carona no carro do mesmo brother que me acompanhara na saída da estrada. Era a véspera de um feriado em 93, e tive a infeliz idéia de tentar refrear o seu pé direito dizendo que aquela carreta não andava, melhor desistir. Bebaço, pisou ainda mais fundo, entrando na curva da saída da ponte perto dos 80km, já pensando na merda que vinha e tendo reduzido. A pista escorregadia fez a caranga patinar, atravessar o canteiro que separava as pistas, subir a calçada quase lateralmente e espatifar uma caixa telefônica. Um poste pararia o bicho, de frente. Sem cintos, pude apenas gritar para o irmão segurar firme. Ele arrebentaria o rosto no volante (que guardaria um dente seu) e apagaria. Eu, ainda consciente mas arrebentado pela violência do choque, fui levado por um conhecido para a casa da namorada, alta madrugada. Recusei veementemente uma visita ao hospital próximo. Um vacilo, sei. E chegar na casa da mulher com álcool saindo pelos poros e arregaçado pelo acidente não contribuiu nada para o prosseguimento do relacionamento.
Ah, e meu amigo? Alguém o levara para o hospital. Sabe-se lá como não nos inutilizamos permanentemente. Vi o carro duas vezes, passado o susto: na PM e na concessionária. Perda total e o painel, empurrado pelo motor, sobre o banco. Nossas pernas? Intactas. O Fiorino ficou do tamanho de um 147.
1994 apresentou-se com as armas da distância nas mãos. A não saída de minha namorada na noite do réveillon sinalizava a tensão máxima a que havíamos chegado. Uma conversa em sua casa (não) resolveria tudo. Primeiro de janeiro, pé na bunda e um verão pela frente. Verão-Guarapari-cidade lotada-ex-namorada assediada-stress máximo. Inferno dez vezes.
O carnaval em Iriri pela terceira vez, a primeira sem ela, devastou-me por completo. Cinco noites indo e vindo, carro cheio de amigos, cada um com a responsabilidade de uma rodada de direção. Já na sexta um acidente na estrada - com seis mortos - apontava o que seria o meu feriadão de Momo. Estar na fossa, prestes a encontrar a ex e ainda tendo que encarar a visão de corpos estendidos no acostamento... Não podia dar certo.
E não deu.
Cotovelo inchado, cachaçada extrema e nenhum contato com o sexo oposto. A possível visão de minha companheira de cinco anos com algum sujeito não ajudava. No último dia, terça, deixei toda a turma pra trás e parti - trêbado, sem cinto de segurança e com o banco do motorista deitado (dormira ali) - pra Guarapari. Blitz da polícia (e havia!)? Não sei como, mas passei intacto por ela. Guardava meu carro, ainda, na garagem do prédio de minha ex-companheira. Deixei-o aberto, rádio no talo e chave na ignição, para o espanto (bem, espanto não, ele me conhecia) do porteiro de plantão. Enfiei-me debaixo do chuveiro de praia, roupa e tudo. Soube das mancadas, logicamente, no dia posterior. Pela minha ex e sua irmã, que encontrei na praia de Meaípe. Ela não podia sequer me ver, furiosa com a minha imprudência. E levei mais de meia hora pra achar o meu carro no começo da tarde. Lembranças? Quais?
O que fazer depois de cinco anos de namoro? Falo sem namorada, claro. Bem, estava sem ela, mas não sem os amigos. E estes continuavam com sede.
O ano começara sem minha companheira e com novo emprego. Trabalharia na Pestalozzi de Vila Velha, tempo integral nas costas. A semana útil (eheheheheh, útil...) por estes lados, o fim de semana da esbórnia (não que ela não acontecesse em outros momentos, lógico) em Guarapari. Sem namoro e os laços de amizade firmes como nunca. O bicho pegaria mesmo a partir de agora.
Passado o verão da angústia (em que parti ao encontro dela em Juiz de Fora, sem aviso e sem maiores preparativos, em uma tentativa espontânea de reatamento – que não consegui, adiantando em um dia o meu retorno) e com o trampo em andamento, caí matando nas putarias do balneário. O apartamento agigantou-se, festas surgiam constantemente e os botecos do centro e da Praia do Morro tornaram-se cada vez mais familiares. Depois do point Trucks (Muquiçaba), era a hora e a vez da Taberna, casa de dois andares com o seu piso inferior transformado em bar dos mais bacanas, gente de Vitória, Vila Velha e até mesmo BH e RJ visitando-o mesmo na invernada. Muita, mas muita coisa ali foi (des)construída. Carros abertos com danças tribais em seu redor, vagabundas levadas levianamente pra casa (numa destas ocasiões, já aboletado em meu quarto do andar superior com uma delas, fui obrigado a interromper a ralação pra socorrer uma de suas colegas, colega esta que arranhava a porta do quarto e gritava por ajuda repetidamente, sua voz sendo soterrada pelas gargalhadas alucinadas do resto da turma. Não transei, as minas saíram esbaforidas e a solução foi permanecer na bebedeira) e brigas.
Brigas.
A pior teve arma sacada, chute cinematográfico na mão armada, cabeça chutada e olhos revirados, em uma vingança por porradaria passada. Nada, nada bonito.
E em uma das mesas da Taberna, cercado por Saulinho (hoje proprietário do badalado Tonteria), Zan, Luís Henrique e cia, ouvi de Binho – que apontava um local a trezentos metros dali – que seu bar abriria em pouco tempo. E que seria inesquecível, sem dúvida.
O nome da fera, Laricão.
Profecia cumprida, brô...
E dele não mais preciso falar (algo que fiz em post aqui publicado). Acrescento apenas que lá passei o carnaval de 95, observando a passagem quase incessante de carros no caminho de Iriri, divertindo-me e embebedando-me maravilhosamente. Ri um bocado (e preocupei-me) quando soube que Leo, brother e garçom de lá, estava licenciado por conta de seu espancamento em um show do Pato Banton nas Três Praias. O que acontecera? Findo o espetáculo, subira no palco e furtara algumas peças disponíveis da bateria. Visto pelos seguranças, foi perseguido, alcançado e... Corretivo no rapaz. Nada que chame muita a atenção em Guarapari, enfim. E que um dos esquemas da coca consistia em cheirá-la no banheiro e já deixar uma carreira batida em um guardanapeiro, este estrategicamente disposto no chão ao lado do vaso sanitário. Você entrava na ordem combinada, cafungava a sua cota e preparava a do amigo que viria logo depois. Simples assim.
Como simples foi chegar por lá em um começo de noite e ouvir de Binho que algo me esperava na chapa de sanduíches. Um pedaço de bacon, uma carninha, uma cebola esperta? Tsc, tsc, não, não. Uma pequena coluna do diabo branco. Com gordura e tudo.
A conta da desgraça não tardaria.
Fim da alta temporada e a depressão pelo encerramento da festa e por um ano que finalmente começaria. O álcool, a cocaína e a maconha sorriam e esperavam mais.
Mais não dei.
Foi tamanha a desgraceira em que me envolvi que somente uma solução radical transformaria aquele estado de coisas. Eu disse radical. Nada de paliativo. E rasguei mesmo, sem piedade.
Sem despedidas e longos diálogos, arrumei todas as minhas coisas, empacotei-as, negociei o envio de meu carrinho em um caminhão-cegonha e parti pra Fortaleza, Ceará. Ninguém, com a exceção de meus familiares mais chegados, sabia de meu destino. Era preciso.
Fiquei na casa de meus tios, necessariamente isolado. A cidade era velha conhecida, pois morara lá três anos em duas oportunidades. Foram longas as madrugadas no quarto, som baixinho e uísque aberto, maço de cigarros pulmões adentro. Peladas de basquete e passeios ocasionais oxigenavam-me um pouco. Mas a angústia não me abandonara, não. Três meses depois, retornei tão repentinamente quanto parti.
Festa na volta, perguntas mil e um novo ciclo de despirocações.
Como quando amanheci com a mão direita detonada por completo, a roupa cheia das cinzas dos muito cigarros consumidos, a desolação da ressaca tomando conta de tudo. Lembrei-me, então, do pequeno desafio que empreendêramos: verificar, em um dos quiosques da Praia do Morro, quanto tempo cada um suportaria com uma das mãos segurando a lâmpada acesa há horas, sem frescuras. Imaginem... Sem contar que, no meio do porre, esquecera-me totalmente de levar um amigo à rodoviária - como prometera. E foi bom saber que outro irmão preocupara-se comigo ao ponto de seguir-me, com seu carro, até a rua de meu apartamento. Eheheheheheheh, serviço de escolta da brodagem...
Não perdia uma chance. Tudo era mais urgente, imprescindível, único. Nada de obstáculos. Nem mesmo o fato de uma estressada menina ameaçar chamar a polícia (e ser detida por um amigo alucinado). Por que, se as suas amigas divertiam-se conosco no apê, meu Deus? Bem, o salto de P. para o sofá e a sua frase: “Agora vamos conversar!” não colaborou, reconheço. Mas o medo foi desproporcional. Foi sim.
E foram todas embora por conta da maluquinha. Ereções desperdiçadas, pois.
Bem, e nada seria completo sem uma participação mais efetiva de nossa polícia.
Noite de dia útil no Laricão, estava lá sem muitas expectativas e na companhia de alguns colegas. Passa um e oferece o primeiro baseado. Recuso. Passa outro e oferece o segundo baseado. Recuso. Nunca fui um consumidor regular de maconha. Ocasionalmente fumava, e bote ocasionalmente nisto. Bem, passa então mais um e oferece o terceiro baseado. Vou, então. Eu e C., beira do mar e, já no final do consumo, a chegada sorrateira dos canas. Armas empunhadas, gritos pra todos os lados e o cigarrinho rapidamente dispensado quando desconfiamos da movimentação. A correnteza levaria o danado embora.
Tranqüilos, esperamos o final da dura pra sairmos fora. Afinal, como os próprios tiras disseram, faltava o flagrante. Por pouco tempo.
Na tentativa de achar seus documentos, C. revira o bolso e de lá sai um “enroladão bacana”, maravilhoso entre seus dedos. A polícia tinha o que queria.
Passeamos um pouco na viatura e tomamos a direção da delegacia. Lá, a identificação (não por mim, que não faço coisas do tipo) de meu velho (pai) pelo civil de plantão livrou-me de cara do boletim de ocorrência - e dos presos famintos, eheheheheh... Mas não livraria C., não fosse o meu bater de pé (“Se eu saio, ele tem que sair. Isto ou nada” – vai ser maluco assim no inferno, camarada!). Os militares, putos, disseram que então nós voltaríamos andando, pensando nas nossas cagadas cotidianas. Andando é o caralho! A galera que percebeu a nossa ausência nos achou, providenciando um retorno menos cansativo.
Como “consolo”, meu esquema estava por lá e recebeu-me de corpo aberto. Beijos e amassos fizeram-me esquecer o episódio.
Vixe, não falei do show dos Stones no Maraca.
Na verdade, não tenho muito a dizer. Só que não esperei companhia e cheguei no Rio com três dias de antecedência, instalando-me sozinho na casa (então vazia) de minha avó. Pulei, suei e bebi pra caralho; encarei uma caminhada, um táxi, um ônibus e mais um táxi pra chegar em casa; e voltei com um sorriso escancarado, absoluto. Clássico, clássico, clássico.
Arf!
Está na hora do almoço, diz a minha mãe, convidando-nos para a mesa. Estou precisando deste aconchego.
Até.
Caio, junho de 1995