Guarapari em Pílulas

Pauleira na moleira.

Name: caio

Sou aquele moleque descalço jogando bola numa rua de paralelepípedos.

Thursday, August 28, 2008

CARTA AO BRUNIM 2008


Rua Joaquim da Silva, 1007
Você bolinando a periguete
Em mil sarrações do amor demais
Lembra que tempo feliz, ai que saudade
Guarapa era só felicidade
Onjacktallback fumado em paz?

Nossa famosa patota nem sabia
a que ponto a cidade chaparia
a Guarapa de amor que se perdeu
Mesmo a tristeza da gente era mais bela
e além disso se via da janela
a vizinha ao léu em seu maiô

É, meu amigo, só resta uma certeza
é preciso acabar com essa leseira
é preciso espantar esse bolor

Nossa famosa patota nem sabia
a que ponto a cidade chaparia
a Guarapa de amor que se perdeu
Mesmo a tristeza da gente era mais bela
e além disso se via da janela
a vizinha ao léu em seu maiô

É, meu amigo, só resta uma certeza
é preciso acabar com essa leseira
é preciso espantar esse bolor

Monday, March 17, 2008

CRAZY CITY TOUR


(...) Pois então à sua esquerda os senhores podem observar a Taberna, velha casa-bar de dois andares que sediou rodas e pogos sob a luz de foqueiras, em madrugadas escabrosas desta cidade. Um pouco adiante... Bem, mais exatamente agora, também à sua esquerda, observem os escombros do Laricão, antológico botecão que fez HISTÓRIA em Guarapari em menos de um ano - ele não esperou envelhecer antes de morrer, babies -, sendo o pico dos melhores tubos roqueiros desde sempre. Nas portas ao lado, percebam, funcionou o Astral Jamaica, muito mais conhecido como o Bar do Russo, epicentro por doze meses de terremotos etílico-despirocantes e matriz de nossa próxima parada, o Hey Joe - igualmente muito mais conhecido como o Bar do Russo. Aqui, em uma choupana com base de alvenaria, crentes e crédulos dos deuses e demônios das garrafas brigaram, socaram tudo dentro, perderam os sentidos e as vergonhas por mais de dois anos, antes que uma terceira sede da instituição fosse erguida no Morro de Meaípe, que veremos a seguir. Vejam!, vejam!, sintam nas entranhas as vibrações do velho templo que vos sussurra, ó órfãos do rock´n´roll! Mais uma vez a caminho do Centro, estaremos diante do Doce Gula, a maior sorveteria de cachaça do Espírito Santo, famosa por suas casquinhas alcoólicas, festas de portas cerradas e aglomerações de sarro e estarro! Isso!, olhem bem! Um cadinho pro lado e cá estamos defronte do Tibi, copão sujo que forrou estômagos e intestinos enquanto acinzentava fígados e pâncreas dos súditos desta ingrata existência! Não se cansem e não se percam, senhores!, pois estamos a caminho do Sonho de Mel, que a despeito de tão nobre aparência já abrigou hordas, turbas e bandos de choppeiros, tal como seu vizinho Bolinha´s, que de modo insano ousou - por pouquíssimo tempo, é certo - gratificar com uma tulipa da boa cevada o bebedor que abatesse duas de suas unidades. Mas calma!, calma!, ainda temos a Praia do Morro. Isso, isso, atentem para o Cabana Viçosa e sua amplitude, templo da música ruim e das bebedeiras de almanaque, primo-irmão do restaurante que deixamos para trás logo ali, aquele do ladrão e sua caverna plena de tesouros. Estamos nos aproximando, sim, estamos próximos do quiosque BH e seu sucessor, o Academia da Praia, points em que cinco reais de 1995 faziam as noites de 48 horas! Pois vos juro, senhores, as notas eram poucas e generosas como os corações dos homens que aqui habitavam! Fechemos este primeiro passeio e descansemos, já que sonhos havaianos, ocas malocas, fortes enseadas, luas azuis, bares de tantos mauros e triângulos vários nos esperam...

THE CHURCH


Irmãos em Cristo, brindemos ao novo templo que abre as suas portas para os sedentos fiéis. A Igreja do Copo Cheio e do Volume Máximo convoca seus discípulos para a primeira missa desta Nova Era; uma era de madrugadas redentoras e plenas de orações ao deuses vadios da boa música e da cerveja gelada. Levem seus fígados cinzentos e seus crânios amassados a um ritual sacro de elevação espiritual, permitindo que o Espírito Santo dos Pudins de Cachaça abençoe suas vidas orgiásticas.

Só o Rock salva.

Monday, January 28, 2008

XÔ, CARNAVAL!


Deixa passar a afobação, deixa a correria pegar a estrada, deixa a rua criar poeira, deixa a farmácia ter o meu remédio, deixa a menina voltar a me olhar, deixa o pão esfriar devagarzinho, deixa a praia ficar com cara de sono.

Aí eu volto.

Tuesday, January 15, 2008

Não recuar. Tampouco permanecer, guardar posição. Avançar, ainda que com o sangue na face. Devemos deixar as fundas marcas na areia dessas praias, meu camarada, e repisá-las antes que a mesquinhez alheia possa eliminá-las. Mesmo com o sol a queimar nossas retinas, a água a salgar nossas línguas, o vento a cravar nossa fronte de... Bem, como continuar a escrever sem um ato heróico medíocre que seja a sustentar nosso discurso, aquela coragem insuspeita de quem não sabe o que deve ser feito, fora o dizer "Não!, daqui não passarás!"? As pedras do Siribeira, o asfalto vagabundo das ruas, o concreto fissurado dos postes, a sujeira das valas, o sorriso forçado das meninas, o copo sempre pela metade nos bares, as histórias recontadas, o uniforme azul desbotado dos porteiros, o azedume de algumas esquinas - a tudo somos gratos e por tudo aqui ficamos. Essa é a tábua de nossas missões, a partitura de uma condução paupérrima que nos restou.

Wednesday, January 02, 2008

31 DE DEZEMBRO

Você observa com o canto dos olhos as pedras apinhadas de um branco maciço e sabe que ali nenhuma idéia se faz do esperma, do suor e das vísceras alcoolizadas despejadas em seus rasgos. Pouco se lhes dão os abusos d´alma cravados nas curvas daquela praia, pouco se lhes dão os cadáveres frescos que pedem passagem areia acima, lívidos. O espocar dos fogos tira das entranhas um raso nada de afeto dos que apenas não são, fugazes como a mão espalmada daquela menina que te deixou sob promessa por sobre a toalha de banho já salgada. 2008 veio mudo, prostrado, olheiras mudas de teu desencanto. Desengano que te chama pelo nome, desamigo.

Friday, November 09, 2007

QUATRO AMIGOS EM 1994




Espichados nas pedras da Praia dos Namorados, falando do ano 2000, cerveja ao lado e sol nas latas; rindo dos anos passados ali e pressionando os nós dos dedos pelo presente-presente, estávamos naquele torpor pesado de quem ainda bebia da fonte da despirocação. Não sabíamos quem perderíamos em pouco tempo, das sombras projetadas e das estradas ainda não pavimentadas que despejariam nossos corpos ao sul, ao norte, ao oeste, ao leste. Era só uma tarde nova de começo de ano, e parecíamos já suar toda a dor que desconhecíamos.




Se o corre-corre da vida (com suas quebradas, pauladas e rasteiras) me permitir chegar vivo aos 70 anos - depois de tudo -, sentarei a bunda nessa praia, acenderei um charuto/cigarro, abrirei a garrafa de cerveja, ligarei o meu som e então chorarei. Passado o choro (e eu saberei a razão), deixarei que aquele pequeno sorriso tome conta do meu rosto (também saberei a sua razão). Depois disso, se a Natureza (ou o homem) quiser encerrar a minha conta por aqui, tudo bem.

Friday, August 24, 2007

1007

O maior apartamento da história de Guarapari tinha 1.500 metros quadrados de área, sete quartos (quatro suítes), seis banheiros, um terraço de lazer (duas enormes churrasqueiras e cinco chuveirões) para cento e vinte pessoas, duas monstruosas salas de estar, uma cozinha (três geladeiras, dois congeladores, oito armários, três pias e dois fogões de oito bocas); tinha também uma vista de 360º (Praia do Morro, das Virtudes, dos Namorados, do Meio, da Areia Preta, Enseada Azul, Meaípe e o Canal). Suas melhores festas duravam cinco dias ininterruptos e abrigavam (até) trezentos e cinqüenta caboclos e caboclas simultaneamente. Era então servido um total de seis caixas de uísque (doze por caixa) 12 anos, oitenta grades de cerveja e um número absurdo de cachaças, vodkas e o escambau. Claro, rolava ainda muito orégano (e muita farinha) - fora os muitos remédios para todos os tipos de dores da cabeça e da alma. Pessoas bebiam no lado de fora da janela (a setenta metros do solo), escalavam telhados, rolavam escadas, trepavam, vomitavam, dançavam nuas, dormiam pelo chão, gargalhavam, blasfemavam e estabeleciam promessas definitivas.

Quem esteve lá, sabe.

Friday, July 13, 2007



E quando você saiu do meu carro e correu pela rua parecia estar pedindo pra que não o deixássemos ir, e assim mesmo você foi sob a chuva e essa mesma chuva te encobria o choro abafado. E naquela noite em tua casa quando desabafaste e jogaste teu coração na mesa nós não sabíamos o que fazer e nada fizemos. E na madrugada de passagem de ano escondeste a tua angústia sob o álcool e as pílulas e não a percebemos ou falseamos o que vimos. E quando dormindo a mão de minha irmã me tocou o ombro eu já sabia que não estavas mais aqui, nem lá, em lugar nenhum entre os vivos. E teu carro espatifado ainda está naquelas pedras, e teu sangue ainda está em nossas mãos, e tua voz surda pedindo socorro ainda está em nossos quartos e por isso andamos por aí, e permanecemos. Porque a tua juventude perdida não pode ser esquecida, e porque se não chorarmos nossos mortos ninguém mais o fará. E estamos neste grande aquário esperando que a linha do Grande Pescador nos busque e possamos enfim te ver sorrir e perguntar: "Alguma coisa valeu a pena, não?"

Valeu sim, meu irmão, e como valeu.

Sunday, December 17, 2006

O caminho é um só - e nunca se repete. Pegue a Ponte e desça até o Davino Matos; contorne o estádio e saia no Triângulo da Cachaça, passando pelo Mauro´s Bar. Dali vá até a Joaquim da Silva Lima e pegue a sua esquerda, na direção da Pracinha do Bradesco (olhe para a Banca Maior e tenha a memória do Rodrigo e do Sal por lá); tome o rumo da Praia dos Namorados e procure a Pedra do Olho; salte de lá e encontre a Arrebentação; saia pelas pedras e ganhe a calçada: a Praia das Virtudes é logo ali, ladeira abaixo. Vá até a ponta e volte pelo Cemitério Velho, achando o Caminho da Fonte. Volte, veja a Praça da Feira Hippie e suba novamente para o centrão. Ande pelo Beco da Fome e ouça os gritos e gemidos das almas mortas. Corra até o Calçadão e escolha o seu lado direito; siga, isso, siga beirando o mar da Praia das Castanheiras até o Siribeira e suas pedras lunares; retorne e caminhe pela Praia da Areia Preta, monazíticos farelos do nada. Suba e vá até o Banco do Brasil, e dali para a esquerda. Vamos, rapá, você consegue. Isso, muito bem. Agora, naquele trevo, isso... Siga reto e pise em Olaria e suas ruas empoeiradas e cobertas de sangue roqueiro. Passe pelo Mercado de Peixes, ok, é por aí mesmo. Observe a Igreja (da) Matriz, estão lá os fiéis desde sempre, atentos. Agora tome fôlego e encare novamente a Ponte, a Rua da Marinha te espera. Basta seguir reto e fazer a escolha certa no entroncamento. Dê uma volta quase completa e depois fique de cara com o Polivalente. Você está indo bem, cara. Agora desça a Rodovia Jones dos Santos Neves e pegue a esquerdona no Balão; a rua ao lado da Guarave (BR Mania) é a tua opção até a Prainha. Desemboque na Praia do Morro pelo Porto do Sol. Ficou fácil... Meta os pés na calçada e vá para a frente, garoto! Passe pelos espectros do Ali Babá, do Bagdá, da Cabana Viçosa, do Evair, da Cabana Sol e Mar e do Quiosque BH, entre tantos outros que são cinzas. Vá até o Morro da Pescaria e mande bala para a esquerda, a Praia da Cerca e suas pedras permanentemente banhadas estão lá, claro.


Agora é a tua vez. Faça o teu caminho.

Já fizemos o nosso.

Thursday, December 07, 2006

Em Guarapari, tempos atrás:



- uma limonada para dez pessoas era feita com a metade de um limão, e um pacote de miojo matava a fome de toda uma turma;

- uno mille era ferrari e um apartamento de dois quartos, mansão;

- o menor bar roqueiro tinha 4.000 metros quadrados;

- cocaína era arroz e maconha, feijão;

- a cerveja jorrava das torneiras das casas;

- a foda era sem camisinha, sem gravidez e sem doenças;

- acidentes de carro eram massagem;

- soco na cara era despertador;

- a casa de um era a casa de todos;

- pessoas voavam de telhados;

- caranguejos eram gado;

- arrebentação era piscina;

- cavalos eram táxis;

- bocas de pó eram supermercados;

- caldos verdes eram xongas;

- cachorro era barman;

- coqueiro era elevador e poste, escada;

- o futebol era épico;

- cerveja no pé sujo era "precinho";

- laricão era sanduba;

- computadores não faziam arte;

- o mocotó ia dos pés ao peito;

- gasolina era azeite;

- pão de sal era peso para a porta.

Friday, October 27, 2006

E o Bonanza? Ali, logo na esquina que travava na diagonal a (então) mítica Feira Hippie do centro. O prédio mezzo amarelo diarréia/mezzo branco esbranquiçado foi pico de algumas das mais porralouquentas histórias da cidade - imaginem esta afirmação quando tratamos de um lugar pleno de porralouquices e desbundes como Guarapa. Lá funcionou a primeira (?) loja de informática de Zan Zan, que já na sua inauguração levou uma penca de malucos a beijar a estratosfera. E que se manteve como point de reuniões nada formais por mais alguns meses. No mesmo edifício vi o segundo tempo e a prorrogação da final da Copa de 94, e ainda tenho clara na cabeça a pirâmide humana de bebuns quando o Menino Zen bicou a bola travessão acima. Fomos dali pro abraço alcoólico arrematador do Posto Dino. Também por aquelas bandas lançamos mão de alguns churrascos memoráveis, quando por lá Mariquito morava (e Macaco também tinha um apê na parada) e chegávamos aos magotes na portaria e dávamos de lata com um porteiro estupefato, boquiaberto. Muita ganja e muita roda de fumaça, mais telhas quebradas e uma visão de 180 graus que abarcava o Canal (e seu mangue), a Praia do Morro e a Enseada Azul.


A nossa permissão decide se isso tudo é (só) passado ou não.

Wednesday, June 28, 2006

Um breve dossiê do apartamento 1007, Rua Joaquim da Silva Lima, Centro, Solar Sol da Manhã - 1991/2001



- Três visitas da PM

- Oito reclamações registradas no livro de ocorrências do condomínio

- Um portão de ferro instalado no acesso ao terraço pra impedir o fumacê da rapaziada

- Um volume incalculável de álcool, tabaco, maconha e cocaína

- Quilos de casais trepando (e três descabaçamentos)

- Cinco cadeiras quebradas

- Um carrinho de bebidas quebrado

- Muitos mergulhos escada (em espiral) abaixo, alguns de costas (16 degraus)

- Um bobó de camarão no teto (é verdade)

- Vômitos em todos os cômodos e até mesmo na parte de baixo da pia de um dos banheiros

- Litros de esperma no boxe de um dos banheiros

- Um vaso sanitário, um CD player e uma janela danificados

- Centenas de vermes no fogão

- Um banho coletivo (de cerveja) de adultos em uma piscina para crianças

- Mijadas da varanda para o terreno vizinho (de joelhos no parapeito)

- Muita, muita, muita, mas muita entrega de muita, muita, mas muita gente pra muita, muita, mas muita gente

Friday, June 23, 2006

*Sei que muita gente está na encolha, mantendo a chama acesa, como se ela estivesse num canto qualquer e quase morta. Basta alguém chegar com o maçarico pra incendiar a merda toda. Basta um bar, um espaço, uma razão objetiva, concreta. Estou dizendo que, se eu perder a aposta, terei ainda uma história a contar e esta ninguém pode me tirar; se eu vencer, muitas expectativas serão contrariadas. Não sou utópico, nem vivo num mundo imaginário. Sei perfeitamente que as pessoas vivem/sobrevivem e tocam suas vidas como podem e que isso muitas vezes acaba por afastá-las daqueles que fizeram alguma diferença em seu cotidiano. Mas falo de algo maior, algo que mexe contigo mesmo que vc se esconda, mesmo que vc tente esquecer, mesmo que vc esteja longe, mesmo que vc fuja, mesmo que vc diga que passou. Falo de pessoas que não se vêem por anos encharcarem os olhos assim, facilmente, de modo espontâneo. Falo de algo que não tenho aqui em Vitória. E nunca terei.



*Este texto é especialmente dedicado ao Russo, que está vivo, bem e forte. E que embalou grande parte disto tudo.

Thursday, June 22, 2006

2002 foi meu último ano no CEG, escola em que trabalhava desde 1999 como professor de Educação Física. Ficava ainda direto em Guarapari, lá no 1007. Manhãs e tardes com a molecada, noites na faculdade. Minha primeira aula tinha início cedão, sete da matina; levantava umas 6h e 15min, me aprontava e partia pro café da manhã na Padaria Sabor, ao lado do meu prédio, e de lá seguia invariavelmente de buzu pro trampo. Uma média e tava preparado pra encarar a bagaça. No segundo semestre, eram 6h e 30min quando comia eu o segundo pão com manteiga na chapa e já me preparava pra pagar a conta e seguir em frente, quando ouvi um estrondo que associei imediatamente ao estouro de um transformador. Estranhei só o grito que ouvira segundos antes, até que saquei os taxistas atravessando a rua com pressa e uma certa tensão. Então entendi tudo: um cara havia pulado do terraço do prédio Majorca, dos mais velhos da cidade e no qual eu e minha família ficamos por dois verões em um apê alugado. Tudo isso a uns vinte metros de onde eu estava sentado e distraído. O sujeito era uma pasta no asfalto, disforme, borrocada por inteiro. Soube depois que se tratava do síndico (ou ex-síndico) da bagaça e que, cheio de dívidas pessoais e do condomínio, passara a madrugada lá no alto tomando todas, ensandecido. Até resolver - e aparentemente se arrepender, pelo berro desesperado que soltara - passar a régua na própria existência e saltar - pois é, saltar - fora daqui. Fui pras minhas aulas sabendo que aquele era o terceiro ou quarto suicídio recente somente na região central da cidade.

Neguim pira em Guarapa.

1995 foi um ano ruim e foi um grande ano. Verão do Laricão, Stones no Maraca, putarias; cocaína, desemprego, despirocações... Lembro-me de um rock no Caminho da Fonte, na casa de B.J., quando ele - com uma mãozinha da rapaziada - deu a partida prum grande evento cocaineiro e alcoólico. Com a viagem branca no pico e o conhaque no fim, partimos eu, S., o próprio B.J. e outro de que não me recordo agora em busca de destilados no Bar Real, do outro lado da ponte. Quando, na ida mesmo, passamos pela Feira Hippie e paramos pruma mijada coletiva entre as barracas fechadas do local, sacamos um carro encostando lentamente na lateral da praça. De lá saltaram dois policias civis mandando os ferros pra cima da turma: uma dura das boas, com revista geral e sacaneadas. Como nos identificamos corretamente e não estávamos portando nada de ilícito (o que aconteceria no retorno, pois), fomos liberados e seguimos adiante.

O resto do quebra-tudo? Nem te conto, rapá, nem te conto...

Tuesday, June 13, 2006

Alguém aí possui lembrança do Bora Bora? Logo ali, Rodovia do Sol beirando a pista, hoje Alamoana e em um meio tempo Na Pista, já com o Dedé no comando? Não? Nada de Bora Bora em tua cabeça? E do Bananas & Bahamas, alguém consegue lembrar? Nas Três Praias. Ah, pois sim, deste sei que muitos se lembram. Uma pena que eu tenha estado lá poucas vezes e alucinado o suficiente pra ter pouco ou nada a falar sobre a bagaça.

Se a memória (minha ou dos outros) permitir, volto ao pico.

Mais? Não, sobre a terceira versão do Russo só tenho isso mesmo a dizer.

O Bar do Russo III funcionou do meio de 2001 para o fim de 2002, no pico em que as cartas foram dadas pela Coconuts, pela Ouriço e por outra bagaça de que não me lembro agora.

Monday, June 12, 2006

O Bar do Russo versão Guaibura (Hey Joe!) teve vida longa - quase três anos - e punk, com nosso chapa tendo que se virar pra ganhar a vida como gerente de bar na Mais e por um muito muito breve tempo cedendo o point pra que seu irmão montasse ali um restaurante simples e na dele. Quando o bicho pegou com mais força a parada foi oferecida a alguns fiéis cavaleiros (eu, Mariquito e Brunito), mas a falta geral de bufunfa e o caos momentâneo não levaram a proposta adiante, e o trem seguiu desgovernado e maravilhoso sob o comando do Cara. Com a sua saída do Multiplace, as coisas se ajeitaram por um tempo e fluíram, na leveza da onda certa e na certeza que fora da bagunça não havia razão pra travar o acelerador no fundo. A considerar que o dono do imóvel era um coronel aposentado da PM; a considerar os débitos impressionantes; e a considerar a alta rotatividade dos pontos comerciais da cidade, o Bar brigou tal qual um titã em desespero boêmio. E aí pintou a chance, aquela que dourava uma pílula maldita e mandava a nave pra Meaípe desacompanhada do que lhe era mais precioso: a vontade de fazer diferente e forte. O Botecão subia o morro pro seu último suspiro. E já subia moribundo.

- Caião, aquilo tudo aconteceu mesmo? Não foi um sonho? Aquilo tudo foi um sonho, Caião!
- Do que você tá falando, rapá?
- Eu tô aqui de frente pro antigo Bar do Russo e a choupana sumiu, só tá a casa lá no fundo. Aquilo existiu mesmo? Acho que foi um sonho coletivo...
- Derrubaram o cabanão?
- Derrubaram, ou então nunca existiu!
- Existiu, existiu sim, rapá...


Mariquito, da Praia de Guaibura para Caio, dentro do seu carro, Rodovia do Sol, em algum domingão de 2004.




Uns dois meses depois de fechar o bar original que beirava a Rodovia do Sol, Russo abria seu pico novo na Praia de Guaibura, de lata para o mar calmaço do local. Desta vez havia uma casa no fundo do terreno, casa esta em que ele morava e que se ligava a uma choupana ampla e de paredes firmes e coalhadas de desenhos, grafites e quadros (entre eles, um do Black Sabbath circa 72 com o qual eu o presenteara um ano antes), e ainda uma prancha de surf com a arte de César Ivan pendendo do teto e ladeada por uma enorme vela de windsurf de propriedade do chefão da bagaça. O balcão corria bonito por metade da extensão lateral do lugar, e o único banheiro prestava serviço aos dois (?) sexos. O espaço pra serviço de chapa e gelo das bebidas era consideravelmente maior que o anterior, e uma pequena cabine guardava os discotequeiros da hora. Tudo certo pra dar certo, e deu certo paca, com pistola sacada do coldre e bicada pro teto, cadeiras jogadas raspando orelhas, vocalistas cantando da caixa registradora, espancamento quase-morte, muro derrubado, banho de mar com cueca rasgada, banho de mar sem cueca, banho de mar sem calcinha, banho de mar sem camisinha, barquinho lotado de póca-tênis, cocaína no tarol, no banheiro e no teto do carro, maconha em todos os cantos, pornografias na telinha, sandubas arrancados de bocas por tapas, trepadas na praia, shows hipertrofiadamente demenciais, esperma no vestido, cachorro bêbado, sinuca e sinucas, cagadas (literais) e cagadonas (metafóricas), bebês chapados (de sono), lagostas, colchonetes, vagabundas, traficas de pequeno porte, punhetas, dedos melados, possessões, furtos, penduras históricos, chiliques, namoros forjados e desfeitos, corneadas colossais, vômitos nas coxas, todo um dinheiro jogado pela janela (mesmo)...

Sacaram agora a real razão da pergunta de Mariquito? Se você estivesse lá, entenderia.

Se você esteve lá, regozije-se.

E se você pensa que o Bar do Russo já era, sacuda a poeira do uniforme.

Thursday, June 01, 2006

Os músicos do rock descrito no texto anterior:


Guitarras - Lemmy, Macaco e Alix (?)
Baixo - Coalhada e um indivíduo que tocou paca
Bateria - Dodão e Tourco
Percussão - Todo e qualquer maluco que se aproximasse
Vocais - Ler "Percussão"
Berros, uivos, risadas, gargalhadas, comentários hilariantes, vaias e hinos - freqüentadores do bar e transeuntes indignados ou felizes

No alvorecer de agosto de 1998 o Bar do Russo fechava as suas portas para algo raro em um point roqueiro de Guarapari: a reabertura em outro local, saindo da beira da Rodovia do Sol e buscando a Praia de Guaibura, Nova Guarapari, Enseada Azul. Bastava atravessar a rua de barro - pouco mais de cinco metros - para, da calçada, bater os pés na areia e alcançar o mar calmo e pontuado por barcos de pescadores. No rock da noite as luzes da cidade mar adentro e lateralmente ampliavam as visões, e estar ali quando o sol dava na cara era maravilha pura.

Mas, e o bota-fora da 1ª bagaça?

Russo programara pros dias 31 de julho e 1º de agosto um rock de fechar a calçada e metade da rua, com uma banda de trocentos integrantes mandando fogo de frente pras portas do bar. Os músicos eram quase todos de Vitória, uma mescla de Medley, Símios e Silence, agregando ainda qualquer um com a atitude certa, qual seja nenhuma pose, estilo ou frescura. Até mesmo eu encarei o risco de berrar alguma coisa em um dos dois microfones disponíveis, ligados a uma caixa que já servia como destino de uma das guitarras. O bar teve ali, mui provavelmente, seu maior público; era a noite de Guarapari voltada pra lá, no encerramento da alta estação das férias escolares. Tudo registrado em um excelente vídeo do qual conheço apenas duas cópias, uma em minhas mãos (sem edição) e outra com o Buaiz (editada por ele, com pequenos cortes). Sua qualidade de captação de imagens e sons é fantástica, considerando-se as condições de manuseio da câmera (álcool paca, maconha paca, porra-louquice paca). São duas horas, uma pra cada uma das noites (sexta e sábado), com a derradeira sem banda alguma, já que os prestativos e eficientes e honestos policiais militares de Guarapari, salvaguardando com incrível velocidade os bons modos da província, providenciaram o desligamento dos amplificadores e o fim do rock com instrumentos em punho. Seguiu dali com as caixinhas da casa, e o sábado, sem banda, teve menos que a metade da turba de sexta-feira.

Mas não foi menos clássico, não mesmo.

Com muito menos gente e com o som do Russo gastando o peso, o pega pra capar de sábado, efetivamente o último da parada, girou em redor deste aqui, de Paulinho, de Mariquito e de Buaiz, este responsável pela filmagem (de todo resto, ainda sensacional). Chegamos por volta das 22h, Mariquito em sua fase “Manca, rapá!” (conto essa história ainda, em outro texto) e todos com muita sede, em que pese a ressaca fodida da madrugada passada. Comando do cd player conosco, dominó (com um acontecimento fabuloso-paranormal que o vídeo eternizou), arremesso de muletas além-Rodovia do Sol, carros na calçada, fogo em latas com óleo diesel (também apagados por ordem dos policiais militares, sempre alertas!), póca-tênis empoleirados, escaladas de paredes, mijadas coletivas na praia, cachorro coadjuvante, olhos vermelhos por duas ou mais razões, cânticos de arquibancadas de futebol, centenas de latinhas de cerva e os Stones capitaneando o crepúsculo feliz do local perto das oito da manhã, momento em que os quatro entramos em meu millezinho e partimos dali com a convicção de que a viagem seria longa, prazerosa e recomeçaria dali a pouco.

Com o tanque cheio.

Thursday, May 11, 2006

O Bar do Russo (não tente, é Bar do Russo e pronto) ganhou corpo e jeito com o correr do segundo semestre de 97 e já chegou ao fim do ano como o bar a ser freqüentado e vivido por quem sabia assar a sua batata no fogo certo. Bebia-se no balcão sem bancos ou em uma das mesas espalhadas pela vasta calçada, papeando com o próprio Russo, Dedé, Steve ou qualquer figuraça que pintasse por lá pra trampar uma noite. A chapa (a chapa mesmo, aquela das frituras) garantia a petiscada e as geladas eram servidas invariavelmente mofadas, no gosto que aprecias. As caixinhas de som estavam espalhadas pelo teto nas áreas interna e externa e eram amplificadas em seu batente pela gargantada da turma. O público fixo devia girar em redor de uns 25, 30 malucos, somando-se a estes - nas noites de sextas e sábados - 40 (por vezes 50) póca-tênis por força do motor etílico-roqueiro. Oitenta convencidos e convincentes sujeitos que validavam a madrugada da cidade em seu limite quebradeira-dignidade testada, gente capaz de todo e qualquer apego ao ativismo mais caro aos que são de lá: o protesto-afirmação de(a) vida levado no balanço e na malandragem de quem é safo por opção ou por natureza. Tudo empacotado e com entrega marcada: 31 de julho e 1º de agosto de 1998.

Monday, May 08, 2006

A inauguração foi em verdade o fim (o cume, o ápice, o alto do monte roqueiro) de festa da última festa válida do Laricão. Estavam lá todos, queiram ou não: os vivos, os mortos e os morto-vivos. Não era permitida a falta, e ninguém faltou. Namorados aturavam-se maravilhosamente, enroladinhos de planta boa corriam de mão para mão, cervejas quentes e menos quentes e até muito geladas escorriam das bocas grandes, Brian Johnson esmurrando Ozzy que lambia a bunda de Robert Plant. A calçada tremia, jogava para o sacode e recebia de volta a omelete humana. Foi bonita a festa, ô pá!, bonita de estar lá. Russo tinha um sorriso de 64 dentes, esfuziante. Estava rolando, era real e ali. A porra do medo de que a coisa miasse tinha ido pro saco, valia a pena de novo, valia a pena brigar por aquilo e suar por aquilo. Era foda, barato, perto, foda de novo, pesado e voador como um rinoceronte com as asas de nossas cabeças. Corríamos como nunca, éramos a parte solta de um mundo despirocado e deslocado do velho eixo. Não era a badalação boateira nem a praia lotada; não era o nheco-nheco do Beco nem a cuzice do calçadão; não era a marra vazia dos shows de verão nem os paraísos de plástico das raves. Era a pilantragem pura e malaca, safada e cheia de ginga com e sem a bola nos pés. Era mais uma vez a noite de 24 horas, sem os relógios nos pulsos.

Conheci o Russo por volta de 93, acho. O cara fazia e vendia camisas em uma estamparia ali pelo centro da cidade. Esbarrava nele vez ou outra e trocávamos algumas palavras. Vindo de Vitória, tinha deixado pra trás a família pra tentar uma parada nova em Guarapari. Depois de bater cabeça um tanto aqui e acolá, resolvera montar um Bar Reggae ou coisa que o valha, sacando que havia uma rapaziada órfã de algo assim desde o fechamento do Laricão, em setembro de 1995. Não que este, como vocês bem sabem, fosse uma praia regueira. Mas o ecossistema roqueiro precisava de um point que catalisasse a raiva, a angústia, a porra-louquice e a putaria de algumas dezenas de cabeçudos, gente teimosa que não queria ver o sol se pôr. A notícia correu bacana pela cidade em meados de junho de 1997. Pouco antes da abertura estive por lá e vi o Russo, o Dedé e o Steve com a mão na massa, na tinta, nos martelos e nos pregos em uma ajeitada final no lugar. Pinturas e bandeiras nas cores jamaicanas, som no talo, balcão generoso, freezer na manha e uma boa chapa dariam conta do recado inicial. O resto seria feito por conta de uma falação desenfreada - causada pela ansiedade e pela expectativa de um bar a ser inaugurado na porta vizinha àquela outra já lendária, na mesma calçada. Coincidência? Maldição? Benção? Tino comercial? Coisa do tinhoso? Provocação? Aposta alta? O jogo tava na mesa pagando nossas mãos.

Sunday, May 07, 2006

Daqui a pouco, o Astral Jamaica redivivo aqui.

Quando voltei pra cá, vindo do afastamento a que me forcei pra dar uma limpada em toda a cocaína que cheirei no verão de 95 (Guarapari-Vitória-Fortaleza), poucos meses depois, parti pra Cidade dos Póca-Tênis e saltei na rodoviária da Itapemirim por volta das sete da noite. Era um sábado perdido de junho. E o primeiro lugar que visitei foi a casa de Godopox. Sabia que encontraria lá a rapaziada toda ou quase toda. Não telefonei, não avisei, não mandei recado nem deixei pistas de meu retorno. Peguei o buzu e fui, simples assim. Ali estava um dos meus ninhos seguros em Guarapa.

Naaaaaaadddaaaa de saudosismo por aqui, pooorrrrraaaa!!! Vem um 95, um 91, um 97 e neguim de fora pode achar que a parada é saudosismo em quinta marcha. Nooossssaaaa, nem perto passa isto. As coisas estão acontecendo agora, no instantâneo, na tensão, pau dentro o tempo todo. Tô cá (?) chegando digitando na chegada do esquema beijolento fodilento xerequento via Alamoana - puta rock foda expansivo único Dedé é foda e pronto - e linkando puxando o Tonteria pau duro puxa a mina e suga-lábio e roça a pica dura e deixa a lisinha roçar nas coxas dela. 5 anos atrás não, moço; foi agora, meu pau duro gotejando ainda da xoxota dela. E entrar no Tonti´s e dar de cara com "Só Clei Salva" e ter a certeza: "Só Clei Salva Mesmo" e o lance é na pancada e Clei voltou, sacas, segura a onda? Eu tava lá dentro e rolou a brodagem e dali foi só deixar que cada qual achasse o seu lugar e a desgracenta lua cheia fizesse o serviço banal. E eu vi Clei pirando e chegando qual o cara que nunca se foi (E se foi? Porranenhuma, mêrmão!) e aí fica teeennnnssssoo e vagabum chega sem marra e pede a benção. Alamoana Paudureza Tonterius língua no céu roça-coxa do inferno. E Guarapa tá lá rindo de tua cara com todos os dentes e achando que tua marra vai morrer sem resultado. Tu achas que é machão? Parte pra Guarapa, otário! Fodenêgapaumarrentoseguraanossa.

Friday, May 05, 2006

"Alienígenas? Meu Deus! Vejo pencas deles todos os dias por aqui!"

Godopox, em uma noite qualquer de 1995




Eu pensei em dizer só: “É foda.” E deixar assim mesmo. Depois pensei que dizer que é foda sem dizer o quanto é foda seria injusto paca. Pois era realmente quão foda? Quão foda era um cara que abria o portão de sua casa pra que cerca de 30 malucos promovessem ali um rock que começaria por volta das 10 da manhã e teria fim (?) lá pelas seis da matina do dia seguinte? Ou um cara que descia da laje de sua casa em construção (construção pelas SUAS mãos) por um tronco de árvore beirando os 15 metros? Ou o mesmo cara que ao lado de sua companheira tocou a vida de tantos filhos sem arredar pé da boagentice sem amarras? O homem do durepox pra todos os gostos, o sujeito dos óculos inquebráveis, o cara do peito cabeludo de aço. Vida que segue? Só se chorarmos nossos mortos.

Tuesday, April 04, 2006

Pra viver assim, é melhor viver morto...

Você, pra mim, é problema seu.

Só digo uma coisa: não falo nada...

De que buraco você saiu, ratazana?

Chega de osso; também quero carne, porra!

O nariz dessa criança é tão grande que ela pode fumar cigarro debaixo do chuveiro!

Mais uma dose dessa cachaça e nós vamos ter que alargar esse tênis seu...

Que nariz é esse/que nariz é esse?

Família, fêmea! Fêmea, família!

Eu só quero amar! Eu só quero amar!

Meu Deus, quem fez isso aqui no meio da sala? Vai ter que limpar! Ah, vai!

Onde é que tá o back?

Minha terra tem um bocado de maluco, mas isso aqui tá foda!

Essa aí já meteu tanto que quando mija cospe camisinha.

Essa aí meteu fogo na cara e apagou a desgraça com um tamanco!

Nelson!

Toxo...

Me vê uma porção de guardanapos, três palitos e um copo d´água.

Por que isso? Por quê? Eu só quero saber: por que isso?

Nossa, o cara é um quibe!

Friday, March 24, 2006

- Tio Caio... Perdi o ônibus, tio Caio...
- Ônibus? Quem tá falando?
- Fábio, tio Caio...
- Ônibus? Porra, puta ressaca...
- Mas tá na boa, eu também só lembrei do buzu hoje, hehehehehe...
- Cara, você não tinha que ir pro Rio de qualquer jeito?
- Tinha? Sei lá...
- Hehehehehehe... O que aconteceu ontem? Minha mão direita tá toda queimada, e tem uma porrada de cinza de cigarro aqui na cama.
- Tá lembrado não, tio Caio?
- De nada.
- Hehehehehe, você e uma galera entraram numa de ver quem güentava mais a mão numa lâmpada do quiosque em que a gente tava biritando.
- Caralho, tô lembrando dessa parada agora...
- E você ainda fumava com a cara pra cima até a cinza do caretinha cair no teu rosto.
- Hehehehehehe, tô lembrando dessa porra toda agora.
- Você chegou com uns charutos, tá lembrado?
- Porra, uns charutos de merda, por sinal. Lá do Sonho de Mel.
- Pois é... E você ficou sabendo da parada que rolou com Caraça?
- Que parada?
- Ele e Fabinho.
- Ele e Fabinho?
- Pois é, camaradinha, Fabinho pirou e quebrou uma cadeira no braço de Caraça, o cara não quebrou o braço nem sei como.
- Caralho, o que o Caraça fez? Zoou Fabinho?
- Que nada, Fabinho tava muito doido e Caraça falou com ele pra segurar a onda, aí o cara pegou a primeira cadeira que viu pra pocar o sujeito. Ele só parou quando reconheceu Caraça. Ainda bem que era uma cadeira vagabunda.
- Putaquepariu...
- Isso tudo numa noite só, brotherzinho.
- Essas paradas na Praia do Morro tão cada vez mais estranhas...
- Bota estranhas nisso, brotherzinho...
- Porra, já que você perdeu o buzu mesmo, vamu dormir mais um pouco e depois beber aquela gelada pra rebater.
- Beleza, é só passar lá em casa.
- Deixa comigo. Valeu.
- Valeu, tio Caio.



Centro - São Judas Tadeu, 1995

Monday, March 13, 2006

- Vamu nessa.

- Não, não, não, não é assim não!

- Bora nessa, Marcio, vamu logo que o bicho tá pegando na Praia do Morro, eu sei.

- Qualé, Marcio?

- O que essa porra tá fazendo?

- Vem cá, vem cá, vem cá, menina, vem cá!

- Vou abrir logo o carro pra gente vazar.

- Aaaaaahhhhh, peguei, peguei, eu sabia, fica quietinha, fica quietinha! Vem com o papai, vem!

- Hahahahahahahahaha! Caralho, o que é isso?

- Hahahahahahahahaha, putaquepariu!

- Marcio, você tá muito doido, meu irmão, larga essa merda aí...

- Tio Caio, liga o limpador, liga o limpador!

- Hein?

- Liga o limpador, Tio Caio, liga, liga aí!

- Hahahahahahahahahaha, caralho!

- Vaivai, minha neguinha: pra lá, pra cá, pra lá, pra cá... Isso.

- Hahahahahahahahahahahaha, assim vou cagar e mijar nas calças!

- Pode desligar.................. Vem cá, neném, vem comigo, chega de brincadeira.

- Hahahahahahahahahahaha!

- Doideirol é pouco, hein?

- Vai pra casa, vai... Já tá tarde, vai...

- Vamu nessa, porra!

- Vamu.

- Hahahahahahahahahahahaha!!!!!!!!




Joaquim da Silva Lima, uma madrugada batendo pino, 1994

Wednesday, February 15, 2006

Desça a escada pra praia
caminhe com a água nas canelas
escale a Pedra do Olho
bata com o corpo no sal
nade até a areia mexida
vulcânica arrebentação
jogue a cabeleira pra trás
cuspa o caldo pro lado
embique o tórax na onda
raspe os cotovelos nas ostras
sorria pra turma da esquerda
endireite os ombros marcados
nua menina na calçada

Tuesday, February 14, 2006

Trucks
Siri Bar
Casarão
Mauro´s Bar
Cabana Viçosa
Evair
Sol e Mar
Mimi
Tibi
Vetorazzi
Sabiá
Taberna
Laricão
Doce Gula
Pastel da Vovó
Astral Jamaica
Hey Joe
Tribo de Gaia
Lua Azul
Aquarius
Blow up
Robin Hood
Ali Babá
Bagdá
Real
Sonho de Mel
Bolinha´s
Gosto Natura
Quiosque BH
Academia da Praia
Alamoana
Na Pista
Hostess Hotel
Sputnick
Banca do Sal
Pousada Enseada Azul
Zangão
Dog Center
Posto Dino
Zé Lanches
Cheiro Doce
Pão Gostoso (Centro)
Beer House
Feira Hippie
Barari
Bonanza
Quiosque do China
Chopp Sala 11
Tonteria
Godofredo´s
Ap. 1007

Saturday, February 11, 2006

Serginho
Luiz Henrique
Zan Zan
Dudu
Bruninho Jesus
Bruninho Estéfano
Bruninho Zanchetta
Marcio Zan
Ronaldo Zan
Caraça
Steve
Dedé
Fabinho Perneta
Varal
Polenta
Caldo
Sabbath
Rodrigo Prong
William
Russo
Wagnelson
Serginho Butti
César Ivan
Salsichão
Vaguinho
Mariquito
Gino
Paulinho Volpato
Paulinho
Lisandro
Alessandro David
Pedrão
Binho
Sérgio Mileipe
Ronney
Léo
Fred
Teco
Sidney
André
Alexandre
Pólo
Túlio
Eric
Léo Gordo
Rato Branco (Flavinho)
Rivellino
Beto
Beto (Bradesco)
Jules
Jobinho
Tião
Romério
Raul
Geraldinho
Guilherme
Claudinho
Cabeça
Patrick
Mauro Lúcio
Rica
Magrão
David
Delano
Kassio

Seu Mauro
Pato Rouco
Túlio II
Sururu
PJ
Bocão
China I
China II
China III
Zé Guilherme
Negão
Joadir
Mackellem
Marivaldo
Tibi
Reginaldo
Anderson
Wescley
Saulinho
Fabio Henrique
Fábio (Sonho de Mel)
Irado
Clei
Mimi
Tuca
Toninho
Caquinho
Fábio Nariz
Andrezinho
Tammy
Helinho Crazy
Geovanni
Jean
Fabiano (Osvaldo!)
Vicente
Leco
Suicidal
Neto
Jazer
Leandro (Lelê)
Rubinho (Feirinha Hippie)
Chileno
Estopa
Guto
Leandro (família Tião)
Seu Severino
Álvaro
Fabinho (Curintiá)
Zé (Zé Lanches)
Beto Tattoo
Carlos
Etiene
Orelhão
Ademir (Tibi)
Renato
Richard
Jorginho Guarapari
Zé Renato
Gustavo
Gerson
Seu Moura
Gilsão
Homem da motocicleta

Thursday, February 09, 2006

Marcio Zan é de estirpe rara. Fala na cara, marra, estarra. Pouca paciência pra canalhada. Marcio Zan é um dos heróis duradouros desta cidade. Já uma lenda aos vinte e alguns anos de idade. Vinte e alguns anos de idade...

Marcio Zan mediu todos os bares de Guarapari, deu o adjetivo de babaca aos babacas e o de puta às putas. Marcio Zan chama azul de azul e pedra de pedra. Até erra, mas zera a cafajestagem alheia. Marcio Zan é cacique que não sai de moda. Roda que mói. Voz que incomoda. Foda.

Marcio Zan sobe escadas, escala telhados e salta de precipícios. De muitos inícios fez milhares de amigos, muitos com seus vestígios. Vícios? Poucos, mas maciços. Maciço maçarico dos bundões que nos habitam. Menino do mantra: "Quemfezissoporqueisso?" Se você foi feito, então sabes. Marcio Zan foi feito? Marcio Zan é criação pouca, louca, malandro de touca que sai da moita sem escolta. Solta os bichos, bicho!

Marcio Zan pode voar, num sabe? Avoado que vai lá ao alto, e desce baixinho sussurrando: "Fêmeaquetequerofêmea,mina". Garoto grande que te carrega rua abaixo sem pressa. Reza a lenda, reza. Retesa.

Marcio Zan está vivo, e bem, e aqui. Aproveitemos, pois.

Friday, December 23, 2005

Você é um cara bom. Seu filho de seis anos é uma boa criança. Vocês nada devem. Os impostos estão em dia. Você e sua mulher são voluntários em uma entidade beneficente. Vocês são adorados, respeitados e paparicados.

Você, sua mulher e seu filho – maravilhosos, boa gente, amorosos, solidários, generosos – naufragaram. Seu único companheiro de merda é um crápula, cafajeste até quando escova os dentes. O mar é calmo, o mar é de vocês. O socorro vai chegar, calma.

Calma.

Calmaria.

Tubarões.

O cafajeste, porco, Imperador da Sujeira, se salva (afastado, o barco o viu primeiro; um cafajeste previdente, com o sinalizador na direção certa, a sorte companheira).

Os três porquinhos, xodós da vizinhança, estão mortos.

A lógica...

A lógica é sua.

A lógica é um problema seu.

A cabeça chutada do cara caído doeu na terceira fileira, sucedendo o bico de tela grande na armita puxada na hora do sufoco. O sujeito tombou e Davi bateu o penal com sangue na língua, o tremelique do mané provocando uma piedadezinha de merda que durou pouco. O aço foi recolhido e jogado na Praia das Pelotas, a turba achando ruas paralelas e comendo poeira antes da batida dos canas. Eu sabia que aquele rosto inchado não esperaria muito tempo. Mas mesmo o Zé aqui não vislumbrava a rapidez e a superviolência da resposta. Foi no bar Taberna, 1994.

Lisandro encrespado com um boy levou uma varada bacana nas fuças e passou a desfilar pela cidade com a lupa na cara e a promessa nas veias. Qualquer novato nas manhas nativas apostaria na vingança seca e crua. A estupidez teria desfecho no local de seu início.

Sentamos todos a encarar a patota do outro lado, o alvo providencialmente sentado com as costas pra parede, olhos na traseira ainda não inventados. Ali, daquele modo, a parada não rolaria de jeito nenhum. Mas sabíamos que aquele bosta levantar-se-ia: ele teria que mijar, pelo menos. A mijada do coitado era a brecha da desforra.

Claro, claro...

Na levantada da mesa a rapaziada de lá fez a ronda e fechou os caminhos, era evidente a nossa manobra. Ainda assim, pelo espaço bacanudo e generoso, com relativa tranqüilidade contornamos parte das mesas. A única chance deles estava na obstrução de nossa caminhada, mas um confronto aberto como aquele seria o caos. Então, antes que uma nova garrafa de cerveja chegasse, Lisandro bateu os olhos no pobre a uma distância que inviabilizava a fuga ou a simples dispersão. Pois ééééééé.......


Acordamos todos - uns muito mais que os outros - saciados.

Bem, pelo menos até que 1995 escarrasse essa sacação toda.

Tuesday, December 20, 2005

Eric acabou de me ligar. Sim, acabou mesmo, quase 3 da matina. Chegou do trampo e nos encontramos no msn. Trocados os telefones, o que o cara faz? Bate um fio de pronto pro parceiro aqui. Irmandade nunca rompida, é o que sempre digo.

Prefiro a invernada, bicho. Egoísmo, utilitarismo, idiossincrasia doida, podecreuza. Não fico ligado nas luzes mórbidas da cidade em combustão da alta, nada disso. Minha parada que queima é aquela das ruas de fenos, ruas vazias demais pra você poder pirar sem restrições, uma piração que pode ser boa, mas que pode te matar num estalo, você sabe. Um lance de pegar a escada por opção, sacas? Prefiro a morena que me rejeita por meus próprios vazios e não pelos vazios alheios, a loura que me quer pelo que não vê e não pelo que pode demonstrar. Cidade vazia da porra vaporosa, da umidade má que te corta ao meio e joga um pedaço pro norte e outro pro sul. O oeste e o leste ficam pros amadorezinhos envenenados de bala, miolos torrando como se fossem panquecas na chapa suja. Prefiro a ponte desgovernada e escorregadia de suor extremo, a Rua da Marinha plena de camelos e a Praiana socando o vento nas nossas fuças. Nada de piedade com as molecas descalças, toda a quinta marcha adiante no asfalto da Rodovia da Enseada ensaboada, engrenagens de carne correndo até o beco curvado do nosso nada. É aquela praia que diz algo quando a maré desce e grita até estourar teus tímpanos quando a maré sobe. Ela te chama e você vai atirando até quebrar os dentes na primeira onda e sorrir assim mesmo sentindo o sangue bater no peito e voltar pro fundo. Batida firme pra casa ondulante na madruga balançada que te odeia e ainda assim te faz dizer: “Foda-se!”


Ali mora tudo aquilo de que nos afastamos.

Monday, November 14, 2005

- Quieto aí, bota as mãos pro alto!
- O que tá acontecendo?
- Bota as mãos pro alto, cara!
- Tudo bem, mas qual é o problema?!!
- Qual é a sua parada aqui?
- Vim conversar com um amigo meu, o Saulo, dono desse quiosque...
- Tá com algum documento?
- Tô com a minha identidade e a minha carteira de professor.
- Pega bem devagar os documentos e passa pra ele.
- Ok.
- O que tá havendo aqui, gente?
- Você trabalha nesse quiosque?
- Sou o dono dele. Esse é o Caio, ele é meu amigo e veio aqui comigo pra pegar um ingresso prum show que vai rolar hoje na cidade.
- Então vocês se conhecem?
- Conheço, ele é meu amigo, professor e tal...
- Tudo certo com os documentos dele? Ele tá limpo? Alguma arma?
- Tudo certo, é outro cara, não é ele.
- O que aconteceu?
- O senhor nos desculpe, mas alguém com a sua descrição tá sendo procurado por assalto. Assim com essa sua roupa mesmo.
- O senhor nos desculpe, foi um engano. Um bom dia pro senhor.
- Tudo bem...




Assim começou o “meu” show do Planet Hemp, levando uma dura na Praia do Morro quando buscava um ingresso de cortesia que me foi prometido por Saulinho, então dono do quiosque Academia da Praia, o point da rapaziada roqueira na depressão pós-Laricão. Exato, confundido com um vagabundo por estar de calças jeans, tênis e camisa havaiana sob um sol de rachar. Reconheço, estava a parecer mesmo um malandro dos bons. O convite tava custando 20 pratas, uma boa grana naquele tempo, e um valor que, poupado, renderia as cervejas do evento. Com a parada garantida nas mãos, restava a espera ressacada de um resto de tarde até a partida rumo ao local escolhido, as Três Praias, então um espaço aberto aos shows, quase paradisíaco, perfeito pelo clima e nada perfeito pela estrutura. E, pra sacar melhor o significado de toda a questão, vale ressaltar novamente o pesado impacto que a bolachinha de cânhamo causou na e entre a turma Guarapa-brazuca: cinco caras jogando nas caras o consumo libertário/visionário/temeroso de uma erva e da ideologia em seu entorno. E eles estavam ali, em um verão, ao alcance de uma pequena corrida de carro. Dava pra sentir na pele e na cabeça a onda de agitação que precedia a sua apresentação, algo como se a revolução, qualquer uma, estivesse ali, esperando uma sacudida nos ossos pra arrebentar o muro. Era novo, excitante, perigoso e único. E estava rolando naquela hora, conosco e por nossos próprios recursos. Não dava pra dizer não.

Agora, acreditem: a única viatura policial que esteve no epicentro do caos bateu em retirada envergonhada, não por medo e não por resistência física, mas por uma facilmente constatável incapacidade de reprimir qualquer que fosse o comportamento de consumo de drogas ilícitas naquelas areias e naquele matagal. Era dada a senha pra que o latente e por vezes nem tão latente “botar a erva e que tais pra dentro” atingisse em pouco tempo o status de ato banal.

Um catastrófico – no que há de bom e no que há de ruim em uma catástrofe – show da capixaba Pé do Lixo pouco distraiu a turba de sua brincadeira abre-debulha-enrola-aperta-puxa; uma performance simultaneamente destruidora e patética, no mais das vezes ignorada pela maioria presente. Fora os (poucos) fãs de sempre, a exigência - de rompimento, ataque e subversão - não comportava nada que fosse menos ultrajante que a banda principal. E a sua entrada para a luz custou uma hora de intervalo a uma platéia que já tornara o pico uma experiência lisérgica exemplar. Anos 60/70 na boca da Rodovia do Sol.

Creeeeiiiiaaammmmm no que vos digo, creeeeeiiiaaaammmmmmmm!!!

Claro fica que toda essa tergiversação pode ser uma romanceada das boas de meu cérebro bombeado por um coração chapado. Mas algum clima, algum clima...

Tava deitado na grama quando ouvi a linha de baixo do Formigão. A parada era tão limpa que pensei na hora que neguinho tinha viajado e jogado um CD dos caras nas caixas antes do próprio show; uma pisada na bola, pensei. Porra nenhuma, o grupo já havia tomado posição e jogava pro alto o “Usuário” em um palquito mambembe, tosco, madeira encaixada na raça, luz fraquita e goiaba pra todos os lados. Poucas vezes vi um mosh tão violento, parceiros centrifugando e retornando com gosto, costelas amassadas e pés troncheados na maravilha que é um jogar dos corpos no caldeirão. Violência sônica de um som afiado por um palavreado político-maconheiro de primeira. Palhetas afiadas casadas emboladas nas baquetas parrudas do Bacalhau. D2 de repente no chão dividindo o fone de rádio com malucos dispostos e democraticamente ouvidos, pra logo depois invadirmos o palco nada cerimonioso mediante um convite do rapper e uma desistência providencial (para eles) da equipe de segurança. Eu e Mariquito, entre tantos, pulando abraçados lá de cima; o mesmo Mariquito tentando bebadamente discursar com o microfone em punho até ser interrompido por um D2 solícito e tranqüilo. Estavam todos em combustão espontânea.

Tudo finalizado com a embalagem luxuosa de um roadie travestido de Jimi Hendriz a solar solitário enquanto a banda deixava a bagaça e seguia em frente. Um Divino Negão cercado por dezenas que se acotovelavam despirocadamente. Apoteose apocalíptica pro mais violento espetáculo musical que já presenciei. Taí uma conjunção de fatores/forças difícil de ser batida. 20 de janeiro de 1996 na nossa mão e no nosso comando, sendo feito ali, sem misericórdia e sem amarras morais. Não sabíamos que nada daquilo se repetiria, pois as duras constantes que público e banda tomariam dali pra frente impediriam um novo show pelos próximos seis anos. É duro fazer a HISTÓRIA de um único dia. O sangue tá nas mãos e quase não corre pra cabeça.

Ainda hoje olho pra trás e vejo esse evento como um divisor de águas pessoal e coletivo, uma passagem por um túnel que nos permitiu dar mais um passo e outro e outro, um deixar/deitar na estrada uma parcela da dor e um bater de pernas desengonçado que nos trouxe pra cá, um certo limbo-vida-dimensão não compreensível fora de nossa ordem.

Um certo sangrar só nosso, indizível e intransmissível. Sangue do orgulho nas mãos.

Friday, October 14, 2005

"Catch a Fire" era o nome da Besta. Rolava ali, em um canto de Santa Mônica, com a praia defronte, areia nos sapatos e maresia nas narinas. Foram quatro ou cinco edições, a última, salvo engano meu, em 1996 (1997?). Clei e asseclas organizavam toda a parada, uma festa de fim de semana com bandas ao vivo e putarias de todos os tipos pros locais e pros forasteiros. O nome do rock já entregava a cabeça e a proposta da turma: balanços malandros com combustível turbinado. Foi uma das mais sólidas instituições roqueiras da cidade, uma certeza de noite ganha, de riscos abertos e trepadas rápidas. Era comum chegar por lá depois das 23h e encontrar três ou quatro sujeitos estirados no chão, transe total na batida alcoólica. Um “boa noite” certeiro pra deixar claro aos manés intrusos que a pegada ali era tensa e forte. O ingresso era barato, barato o suficiente pra deixar a malandragem entrar e aprontar. Nada que não fosse controlado pela organização, versada que era esta nas manhas dos malacos nativos. Lembro-me de, passado um aborrecimento com amigos, encarar a Rodovia do Sol nas canelas pra buscar o meu apartamento no centro da cidade, sendo resgatado por uma amiga solidária no breu do acostamento. Lembro-me de duas ou três brigas mais e menos feias que alcançaram como resultado os brigões na confraternização da calçada suja de sangue. Lembro-me de um torneio de cachaça em barril, gratuita, que não me permitiu levar o carro, sendo este entregue ao menos bêbado dos cinco malucos. Lembro-me ainda das muitas tentativas frustradas de levar Mariquito (sua) casa adentro, desmaiado e indo ao chão pelas mãos de quatro amigos de fé. E lembro-me, com força ainda maior, da pergunta de seu pai ao vê-lo na cama, olhos revirados e boca aberta em uma quinta dimensão: “Álcool ou outras drogas?” E lembro-me de sua expressão de alívio com a resposta (“Só álcool, só álcool...”). Coisas que não vão se perder na estrada ventosa nem pelo caralho. Não mesmo. Eu não deixo.

Tuesday, October 11, 2005

Serginho veste o bermudão, desce de seu prédio e atravessa a rua. Bate o calçadão, escala as pedras do Siribeira e salta para a água. Nada até a Praia dos Namorados, estica o corpo na areia e deixa o sol bater na cara. Serginho pega a prancha de surf, entra no carro dos irmãos e parte pra encarar as ondas do sul do estado. Serginho volta, banha o corpo e encara um futebolzinho na Praia das Castanheiras. Serginho, em casa novamente, arruma algumas coisas, mete os sapatos arrebentados pelo tempo e racha a rua na busca do boteco da hora. Serginho chega, congrega, agrega e alegra. Serginho vai dormir com a luz do dia batendo em seu colchão jogado no chão, sorriso safado na cara de moleque genial. Serginho não perde tempo e, acordando ressacado, joga a água gelada do chuveiro na carcaça, engole um café novo e multiplica-se por Guarapari em um bater de pernas sem fim. Serginho é meu irmão, meu amigo, a cara dessa cidade que nos arremessa nas faces suor, sangue, álcool e tesão. Serginho, aquele garoto que conheci em 1989, completa amanhã 31 anos com o mesmo encanto sacana de quem vê a vida melhor agora, não no futuro. Parabéns, cara, e acredite: a festa sequer começou pra nossa turma.

Saturday, October 01, 2005

Guarapari não está somente em Guarapari: a vibração da cidade permite a sua reprodução por meio da força que cada local carrega nas entranhas ao viajar. Não há razão para limitar geograficamente as suas histórias, elas estão aí, ali, acolá, em qualquer canto sujo balançado por sua turma. Você peregrina e joga Guarapari na cara e na alma dos anfitriões. Aconteceu em BH, 1994, aniversário da cidade das ladeiras. Foi, mais uma vez, muito foda.

Bruninho Jesus, Alessandro e Márcio Zan foram na frente; eu, enrolado com o trampo, fiquei de encontrá-los um dia depois, partindo de buzu de Vitória. Peguei o telefone da casa de Gutão – Cidade Nova – e combinei uma ligação assim que saltasse do ônibus. Alguém me pegaria no ponto combinado, uma avenida de grande movimento no acesso ao coração belorizontino. Pulei fora no pedaço indicado e aguardei a chegada de um dos insanos. Nada. Telefonei de um orelhão para a casa. Nada. E fiquei a pensar na imensa probabilidade de a chapação na noite passada tê-los levado a um estado de desmaio profundo. Dez minutos e nada. Vinte minutos e nada. E eu lá, sentado na mochila e matutando as providências a tomar quando, a uns cinqüenta metros, do outro lado da pista, vejo uma figura a acenar. Aceno eu de cá e ele responde de lá. Era Alessandro e eu estava vivo na parada.

Abraços trocados e seguimos adiante. Márcio Zan e Bruninho estavam inertes, sem um suspiro, em um nível de podridão alcoólica tremendo. Gutão ainda parecia bem disposto, fazendo as honras da hospedagem. Alessandro travara uma luta desgraçada para me buscar. Logo eu estaria combatendo na mesma batalha.

Todos acordados, almoçamos alguma coisa – e seria a última refeição até o almoço do dia seguinte – e iniciamos o bater de pernas pela cidade. Casa de um, casa de outro, apresentações feitas e a horda já estava mais encorpada. Éramos uns dez caras zanzando um bocado, gargalhando despirocadamente em nossos bermudões largos, tênis sujos e bonés encardidos. Estava tudo ali, pra ser rasgado, confrontado e devorado.

Sábado ainda, meio da tarde, e fomos em bando para o ensaio do grupo do primo de Alessandro, um dos muitos que tocariam na Serraria, espécie de (enorme) galpão que beirava a Praça da Estação e point em que uma dezena de nomes faria estardalhaço no evento alternativo do já alternativo BHRIF, festival indie de bandas gringas e nacionais que fazia parte das comemorações do já citado aniversário da cidade. Nosso plano era simples: ver o que fosse possível na Praça e depois buscar os shows da Serraria. Dois quilos de qualquer alimento não perecível serviriam como ingresso para o evento principal; na Serraria, nem isso.

Banhos tomados e táxi na mão (sempre baratinho e bacana por lá), passamos em um supermercado pra comprar o rango pros shows - preocupados em não levar apenas farinha de trigo, o alimento mais barato que podíamos encontrar. Que tal um feijão, sei lá? Compramos todos farinha de trigo, claro.

E caímos na gargalhada quando nos deparamos com a montanha de sacos de farinha de trigo na entrada do festival.

O frio tava rachando a turma, montes de punks de preto espalhados, metais maquiados, minas cuidadosamente esculachadas, ripongas velhos e novos, góticos e até um vampiro. Sim, um vampiro. Não me peçam explicação, peloamordeDeus...

Algumas apresentações depois, fomos bater os queixos (friozinho desgracento do inferno aquele) na Serraria. Boas bandas, bandas ruins, bandas medíocres e todas honestas, urgentes, nervosas, suando a porra da camisa e fazendo valer a bagaça toda. A armação de ferro que separava a platéia do palco foi eliminada assim que Alessandro tomou a iniciativa de escalá-la, levando junto a turba. Show do underground com veadagem não dá. Mandaste bem, irmão!

Comemos então alguma coisa em um boteco próximo e fomos pra casa.

Aliás, a dormida da rapaziada merece destaque: quatro caras em dois colchonetes, cabeça com pés e pés com cabeça, sacam? Sem travesseiros, sem lençóis, porra nenhuma. Na raça e na marra, como deve ser.

Mais caminhadas no dia seguinte, skateadas de Alessandro com prancha emprestada por um pivete, almoço com cervejada em um restaurante gente boa, pulos de sua mureta, pauleira metálica na moleira e o início de minha despedida. Perderia o show mais esperado pela turma: Fugazi. Segunda de feriado pros nativos, segunda de trabalho pra mim. Não dava mesmo.

Fui para a rodoviária acompanhado pelos irmãos, completamente bêbado e louco pra despirocar e ficar com um enorme foda-se para o batente. Entrar naquele ônibus foi foda. E, apesar do ar gelado do condicionador, antes da primeira parada eu já estava sem camisa, ressacado e suando como um porco (porcos suam mesmo?). Vocês deviam ter visto a cara do sujeito que viajava na poltrona vizinha. Ele jamais entenderia a selvageria maravilhosa que estávamos vivendo. Dois mil anos em um final de semana.

Monday, September 19, 2005

As peladas na Praia da Areia Preta durante os verões e feriados são antológicas, intensamente antológicas. Com o sol sumindo por volta das oito da noite, a gentileza suprema do horário de verão, os veranistas mais resistentes permaneciam por lá até o último raio. Com tal coisa, restava-nos buscar a ponta esquerda da região, junto ao Siribeira Clube, um espaço que podíamos utilizar sem nocautearmos algum banhista distraído. Tudo, claro, depois de bebermos quase todo o estoque de cervejas do Quiosque dos Japas, ponto de três irmãos e sua mãe que abastecia os fígados da turma. Pensem na receita da bagaça-peladeira: alta estação na cidade + quatorze horas diárias de sol + cervejas geladas na areia + futebol insano. O esfolar não tinha as canelas como limite. Ele buscava da testa ao peito do pé. Sim, a disputa pela bola só cessava quando a pelotinha buscava a rua, a área atrás dos gols ou pelo menos um metro de água. Voadoras, carrinhos com os pés satânicos, empurrões escandalosos, ameaças abertas, safanões pilantras e despirocações várias. Toda a baderna tinha por ponto final o mesmo quiosque, no qual, espertamente, uma cota x de louras estava afastada da sanha dos turistas. Não era apenas o futebol bretão que tomava conta de nossa atenção; vez ou outra brother Leonardo aparecia por lá com uma bola oficial do futebol ianque e aí, bem, aí peço a sua imaginação. Se o nosso futebol já era combustível para porradas deliciosas, o corre-corre porra-louca dos gringos servia como a senha infernal para algumas das mais desgracentas seqüências de colisões corporais já observadas por aquelas bandas. Lembro-me bem de um gol espetacular de Lisandro - irmão de Leonardo -, quando este rompeu a última linha com dois caras puxando o seu bermudão até os joelhos. Um golaço, digamos, de raça, vontade e contato aberto com a natureza. Um gol com a cara de Guarapari.

Wednesday, September 07, 2005

Quando o “Usuário” foi lançado, Guarapari veio abaixo. Era visível a excitação da rapaziada com o discurso arriscado de D2 e asseclas. Uma quantidade absurda de reclamações/desaforos/desabafos encontrava em disco o seu caminho para a catarse. Repentinamente pintava a oportunidade de jogar nas ruas um comportamento arraigado embalado em música poderosa, alta, enviesada, malaca - as fuças da cidade. A carioquice extrema da bolacha batia com perfeição com a ginga da turma das ladeiras de São Judas Tadeu, da Praça do Bradesco (epicentro na Banca de Salsichão), do Mercado de Peixes em Olaria, do calçadão da Praia das Castanheiras, do Beco da Fome, do Caminho da Fonte, dos cruzamentos insanos da Praia do Morro, das barracas de salgados oleosos da Praia da Areia Preta, das pedras do Siribeira, das curvas da Enseada Azul, das ruas empoeiradas de Ipiranga. Todos os bons e maus malucos unificaram a verve maconheira/política: um engajamento comportamental estupendo, legítimo e espontâneo. Não seria mais possível cair de cabeça na bagaça do rock sem a música de provocações do Planet Hemp. Ainda que uma parcela encarasse o panfletarismo da banda como a base pro consumo da erva e nada mais, os caras mais espertos sacaram que aquela porra-louquice era apenas a cereja no topo do sorvete, um empurrão para uma tomada de posição e para uma consciência do “poder fazer, aqui e agora”. A postura passou a ser mais belicosa e menos contemplativa e bonachona. Lembro-me bem de um papo em que uma voz disse que aquela era “a janela que faltava, velho”. Como se aquela fresta prenunciasse um tempo menos cabuloso e repressor. Era a conversa entrando nas casas e encontrando na grande mídia o suporte pro conflito geracional. O uso ou não de uma droga era discutido e apresentado como o trampolim para um salto de proporção desconhecida; afinal, liberar/tolerar o consumo da danada indicaria um tranco na política sócio-familiar, os durões de antes cedendo espaço pela simples impossibilidade de recuo daquelas tropinhas de hedonistas. Tudo isso encontraria o seu ápice em 20 de janeiro de 1996. Mas esse é um outro papo para a mesma onda.

Friday, August 19, 2005

O rock dos cinco reais criou fama, já é lenda, uma história a ser repetida e repetida. Era 1996, verão chapado e estávamos todos órfãos do Laricão. A ressaca do início do ano anterior ainda secava nossas bocas quando o quiosque do Saulinho acolheu aos poucos a turma que rodava perdida. De uma segunda para a outra o ritual etílico ganhava estilo naquela barraquinha quase na areia, jogada ali entre uma porrada de outras caçadoras de turistas. Só que o cara que comandava aquele troço tinha um histórico de rocks potentes na cidade, conhecia quem devia ser conhecido e jogava para as caixas a nossa distorção. Era batalhador o sujeito: fechava a birosca já com o sol na cara, dormia em um colchão jogado sobre um dos freezers (o mesmo era feito por seu pai e um ajudante de fé nos outros dois equipamentos) e já perto das nove da matina estava de pé pra encarar a alemãozada. Na noite o controle remoto do som era invariavelmente jogado em minha mão e a tribo babava ensandecida. Peruinha quase virada quando um babaca qualquer rompeu o nosso espaço sonoro, mijadas na própria calçada, gente trepada na árvore, sonos na areia da praia, banhos de mar noturnos, motos espatifando-se em carros estacionados etc. Já corria pra lá no caminho de sempre, fugindo do engarrafamento costeiro e estacionando o uninho na lateral do (Hotel) Quatro Estações. Dali alcançava o quiosque em menos de um minuto e sacava da carteira a nota de cinco mangos. Paulinho e Mariquito chegavam e repetiam o gesto. Quinze reais representavam, pois, a soma de nossas expectativas alcoólicas. A cerva (600 ml) custava R$1,50, o que nos dava a garantia de dez geladas na seguinte ordem: cada um bancava três garrafas e os cinqüenta centavos restantes somados bancavam a saideira. Dez menininhas e gargalhadas espontâneas faziam a(s) cabeça(s) – além de nosso crédito na casa e por vezes a despirocação precedida (iniciada) por um encontro uísqueiro em meu apartamento. Mas geralmente as quinze pilas bastavam na boa. Era a dureza coletiva transformada em euforia prolongada. Mágica, sabe, apenas mágica.

Tuesday, August 09, 2005

Guarapari está destinada a modernizar-se fisicamente e a permanecer decrépita no espírito. Não, não diria decrépita, talvez a palavra não faça justiça ao sangue da cidade; melhor fica a imagem do ser humano que aproveita parcimoniosamente as facilidades do hoje sem deixar de cultivar as idealizações enrugadas, preso que está a um tempo que nunca foi parceiro seu. As ofertas da cidade são respostas a uma demanda boçal, gulosa e sem cerimônia. Ela dá aos turistas um cadinho de seu raso prato de novidades em troca de uma calmaria invernosa com defeito de fábrica. Mesmo a garotada padece em um processo de envelhecimento que não distingue extrato social. É um correr desesperançado contra o coelho e seu relógio, uma corrida cujas linhas de chegada estão pintadas desde sempre nas rodovias que jogam corpos fora. A resistência pela construção de uma rotina de despirocações (seria esta uma contradição em termos?) leva a uma encruzilhada: ficar - fincar - nas trincheiras alucinógenas monazíticas compensaria a mão aberta deixando a estável existência estrangeira escapar? Quando fiz a opção pela saída/fuga da cidade busquei uma estrada sem curvas em que pudesse dirigir somente na quinta marcha; pude assim observar a paisagem com o braço janela afora. Mas a velocidade pode ser aporrinhante, donde cá estou jogado nas curvas enlameadas que bem conheço. Mais e mais tenho a firmeza d´alma que a beleza de meu carro está na sujeira daquela terra molhada.

Sunday, July 24, 2005

Não julgo - ainda que superficialmente - pessoas por sua faixa etária, geração ou coisa que o valha. Aprendi recentemente que generalizações nessa área são substancialmente mais estúpidas que outras. Uma geração só possui como ponto comum as inevitabilidades de seu tempo. Em Guarapari forjei a convicção de que a minha idade biológica só me afetava pelo fato de que a sua constatação ("Uau, tenho mesmo x anos?") deixava clara a minha disposição de luta. Enquanto a companheirada buscava espaço nos últimos vagões, eu seguia tendo como objetivo e motivação assegurar a minha poltrona na locomotiva, não importando realmente o caminho a ser tomado. Acho (penso?) que, uma vez com a visão do percurso garantida, fica mais fácil bater um papo com o condutor. Não quero que alguém lá na frente tenha a oportunidade de corrigir uma rota que possa me agradar. Prefiro brigar para que ela seja pelo menos algo próximo do que trago cá dentro. Claro que sou também passageiro, mas se der pra bater um papo com o dono da direção já tá valendo. Guarapari me deu (a possibilidade de alcançar, digo) a maturidade por uma via sedutora pelas dificuldades mascaradas. Parecia fácil, eu buscava e tomava um senhor ferro; limpava a roupa, espanava o apartamento e repetia a cagada mais quatro, cinco vezes. A merda era de tal forma aperfeiçoada que alcançava um estado de arte. Em Guarapari, se você for razoavelmente safo, tuas cagadas podem reverberar de um jeito especial. Sei que este papo está meio hermético, mas qualquer um que tenha se arriscado por lá sabe do que trato aqui. Não sei se é a água que bebem, o vento que lhes racha a cara ou o tédio invernoso que fode tudo, mas é fato para mim e para a turma em meu redor que uma certa química só rolava quando estávamos naquele solo. Questão de confiança socada, de uma brisa litorânea qualquer ou de uma desesperança sólida, sei lá. Aposto na desesperança sólida. Todo aquele ressentimento ficou pra trás. Chega de choramingo bobo, pretendo torcer aquela toalha até a última gota. Os ressentimentos até ajudam, sempre é bom carregar consigo um pouco de dor no momento de encarar aquela estrada. Assim a guarda não fica tão aberta, o que por lá é excelente política. Na guarda aberta arrebentei-me todo mesmo nas coisas mais miúdas, mais banais. Malandragem, malandragem, malandragem, taí uma coisa que sempre cansa. E em Guarapa você tem que usá-la o tempo todo.

Wednesday, July 20, 2005

- Fechou a porta?
- Só encostei.
- Fecha essa merda pra não dar merda.
- Ok.
- E o prato e a colher?
- No lado esquerdo do armário cê vai achar tudo.
- Beleza. Quem trouxe os fósforos ou um isqueiro?
- Eu tenho um isqueiro aqui, é muito melhor pra tocar fogo nessa porra.
- E os papéis? São dois ou três?
- Caralho, são dois; se fossem três nossas narebas iam explodir.
- Ahahahahahah, porra nenhuma, as narebas dessa galera agüentam pó pra caralho!
- Porra, minha nareba agüenta, eu garanto, brô...
- Papel de vinte ou papel de trinta?
- Dois papéis de vinte, malandro.
- E qual vai ser o rock depois, cambada?
- Rock depois? Cê já ta doidão, camarada? Depois de cheirar isso tudo se tu roquear vai acabar matando alguém, mané!
- Acho que já mato um aqui mesmo, eheheheheheheheheh.
- Podi crê, cheirando essa bagaça aí vou acabar batendo no teto.
- Joga logo um papel no prato, brô.
- Qual?
- Qualquer um, porra, os dois não são de vinte?
- São, mas acho que um deles tá mais bojudinho que o outro.
- Ah, falô, tu já viu traficante errar na mão? Desde quando?
- Sei lá, dá uma olhada nessa parada aqui.
- Caralho, parece que um papel vale mais de vinte...
- Ou um deles vale dez e o outro vinte e o cara passou a perna na rapaziada.
- Porra nenhuma, a freguesia aqui é antiga, o cara não ia dar esse mole.
- Bem, foda-se, se o cara vacilar alguém vai lá reclamar? Sai fora!
- Descarrega logo isso no prato, vamu logo.
- Uuh, pó fresquinho no prato, cambada!
- Cadê o isqueiro?
- Tá aqui.
- Ééééééééééééé........
- Vamu ver essa pedra desmanchando, galera!
- Traz uma gelada aí enquanto a pedrinha não esfarela, mano!
- Tá na mão, brô. Quatro copos ou alguém não vai beber a cerva?
- Quatro copos, meu irmão!
- Beleza.
- Valeu.
- E olha aqui o que eu ainda trouxe pra festa, rapêize!
- Caraleo, 12 anos?
- Nada, oitinho, mas tá na onda. Não vai querer não?
- Porra, claro! Vê um copinho pra mim aê!
- Quem mais?
- Eu!
- Manda um pra mim também, brô!
- Xá comigo, brô.
- Bicho, essa gelada só tá me atiçando, brô!
- Tem gelinho não?
- Rapaz, tem não, não venho aqui faz um tempo e a geladeira nem tava ligada. Menos mal que a cerva veio já geladaça.
- Alguém aí tá na disposição de buscar um gelinho não?
- Senta a bunda aí que na hora que a cheiração começar tu vai esquecer rapidinho esse gelo.
- Tranqüilo.
- Acho que a parada já tá boa.
- Bate aí.
- Quem vai primeiro?
- Vai você mesmo.
- Deixa comigo.
- Arrumar uma notinha bonita...
- Manda bala.
- Schuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii............. Putz, essa foi foda!
- Vou eu agora.
- schhhuuuuummmmmmmmmmmmm!!!!!!!
- Rapaz, essa foi gordinha, hein? Bate aqui, mano!
- Vai lá você agora.
- Sshuiiinnnnnnnnnnnnnnnnn........ Caralho, porra, assim meu nariz vai pro saco!
- Eheheheheheheheheheheheheheh...
- Faltou o papai aqui.
- Vai nessa, brô...
- Schiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmmmmm!!!!!!!!
- Yeaaaahhhhhhh!!!
- Mandou certeira, brô!
- Poisé...
- Dá pra bater mais quantas cês acham?
- Cara, com dois papéis de vinte? Acho que cada um consegue bater umas seis carreiras das gordas.
- Beleza.
- Tem uísque ainda?
- Toma.
- Vai mais uma dose?
- Vou ficar na cerva mesmo.
- Acho que a geladeira já tá dando conta.
- Tá sim, já dá pra beber na boa.
- Deixa que agora eu bato.



Guarapari, Aeroporto, junho de 1995

Friday, July 15, 2005

Só acredito com o sangue nos olhos. Sem o sangue nos olhos tudo passa sem valor. O sangue nos olhos aponta a alma aborrecida, aquela porrada que ainda não foi assimilada. Não adianta, a conversa comigo só alcança a sexta marcha com o sangue nos olhos, porra. E Guarapari com isso, merda? Ah, Guarapari com isso sim, ô mané manézão! Guarapari é o sangue nos olhos do garoto perdido no meio da rodovia do sol, aquele moleque tesudo carnudo porrudo cheio de marra que bebe o líquido quente da menininha esporrenta. Guarapari é o martelo na mão do indigente que não sabe o caminho de casa, mas sabe o caminho de TUA casa. Sem o sangue nos olhos a conversa é cocô amassado, a noite vai e nem chegou aqui e nem sentou e nem buscou fuga em meu membro; Guarapari é o pau duro do cara que meteu ontem e não tirou de lá e quer mais da mina que gargalha e ri do povo de cá. Vim de lá agora e vi os olhos coloridos de extrato de tomate da raiva burra e redentora, a boca sangrando de pele ruim do leão de chácara dono da porra da calçada, a turma medrosa corajosa corridona de músculos na contração da avalanche que esmaga e me faz querer o suco daquela xonga. Guarapari não cabe na caralha de um texto medíocre que jogo aqui socando estes teclados melequentos. Guarapari não pede a esbórnia só a esbórnia que vai no meio das pernas da puta que me despiroca e pede a cerva quente que não vou beber. E quando ele disse "Caio, foda-se, aperte a minha mão, idiota, tô aqui e não tô lá e quero a noite agora e o resto que vá para a putaquepariu!" e senti o coração apertando e diminuindo a porra de meu pescoço e soube que tava no lugar certo e que rodei e rodei e rodei a desgraça das estradas e que burramente me perdi e o meu inferno é este e ri e sorri e pensei nela que não me quer mais e deixei todo o resto de lado e gozei sozinho sem achar que merecia piedade. Guarapari deu em minha cara e não me olhou nos olhos e não pediu: "Dá licença, seu Caio, mas você é um merda, um bosta, seu tempo ficou pra trás e deixe-me passar que a garotada tá chegando e tenho que limpar esta zona". Fiquei ali chapado e não esperei o carro passar e o telefone tocar e abri a porta do apartamento e o cheiro de velho esbofeteou a minha nareba e pensei a cagada que não posso mais apagar. Guarapari é o suco de meu esperma que não gerou coisa alguma e não me deixou em seu asfalto e que de quente não tem o meu presente. Todos aqueles passos dados vão se perder e eu sei que ela tá trepando com aquele outro que enfia melhor que eu e ri e lá no fundo sei que ela pensa o quanto fodi tudo errado o tempo todo e fui ridículo em minha pretensão de ser O Cara Dela. Guarapari joga toda a bagaça em minha cama e tenho que aturar e sorrir e dizer que tudo vai bem e nada vai bem, diabos, e meu coração é um poço em que as angústias brigam por espaço e o espaço é aquele que foi deixado em um canto dez anos atrás.

Thursday, June 30, 2005

Em meados de 1992 a grande rebordosa foi bater em uma rua sem muito charme de Muquiçaba. Era rara a travessia da ponte para a busca de algum rock que não rolasse na Praia do Morro. Por razões ainda desconhecidas, o ajuntamento de cabeças calhou de acontecer em redor de um bar de estranho nome - "Trucks" -, ponto dos novos pagodeiros que já infestavam a cidade. Mas que diabo levava a turma roqueira a reunir-se em um local que primava pela badalação mauriçola? Resposta fácil quando falamos de Guarapari: a orfandade causada pela ausência de um mísero bar que a abrigasse sem reservas. A opção era, pois, fechar os ouvidos para a baba que vinha do boteco dos pandeiros e tratar de, pelo comportamento singular, fazer daquele espaço o templo do momento. Levando em consideração que a rua comprida e lotada dava ao nosso bando a possibilidade de permanecer afastado do epicentro da titica, metade da batalha estava vencida. Como abrir mão de uma festa como aquela, toda a cidade que parecia importar ali, jogando tudo para o alto, esperneando, esporrando, deixando as tripas pelo chão em meio a uma única poça de vômito? Como esquecer a quase merda de uma arma apontada para a cabeça de Zan Zan, reação despirocada de um policial civil a uma despirocação quase comum do irmão-mor? E o brô Chileno (apesar da nacionalidade argentina) a quebrar em um rasgo de emputecimento o vidro de um balcão de bar, os policiais militares a ameaçá-lo com a prisão imediata e a minha intervenção - de sucesso - pós-formatura de advogado fuleiro? E as garrafas de cerveja formando uma impressionante fila junto ao muro de uma das sofridas casas da vizinhança, os berros incontidos e os versos incompreensíveis de uma canção doorsniana ("like a butterfly...", lembra, Zan?)? E as trepadinhas com as bundas esfoladas pelos chapiscos, os carros ziguezagueando distantes das carteiras de habilitação, a ida para lá com o sorriso no peito e na face pela certeza daquele encontro inesperado? Engraçado percebermos hoje que pensávamos aquelas passagens como a glória em mãos, o topo alcançado sem concorrências visíveis. Em verdade estávamos certos, aquele era o cume, e em nossa urgência porralouquenta nada apontava para uma espera, para um acúmulo de energias objetivando os anos vindouros - porque certamente não vislumbrávamos sequer um pedacinho de futuro, o agora-já mesmo-me dá essa porra aqui-quero tudo neste instante exigia que gastássemos sem piedade todo o gás disponível. Excitações nas madrugadas vaporosas do néon carnudo. Sem legendas, por favor.

Monday, June 27, 2005

Este blog não foi criado pra elevar quem quer que seja a qualquer nível de admiração. Objetivamente não importa quem fez tal e tal coisa, se alguém foi menor ou heróico em algum episódio, se tal fato foi comezinho ou relevante, se lições foram apre(e)ndidas e morais subvertidas. Conta aqui a ação, o fazer sobre o observar, a tentativa dissociada do resultado, a procura infrutífera superando a inércia. Vale o sangue jorrando, a gargalhada inadequada, o porre repetido, a amizade frustrada e a boa amizade, o chopp quente coletivo e o chopp gelado não compartilhado, a sonolência e o arrependimento, a luta sem sucesso e o fracasso redentor. São histórias que não pretendem provar coisa alguma, são histórias e só. Que devem ser contadas, que quero crer suficientemente fortes para um registro. Além de quaisquer considerações, alguns mortos e suas memórias merecem este espaço. Estes e os vivos que permanecem com fé.

Saturday, June 25, 2005

Godopox é uma das mais duradouras lendas de Guarapari. Como toda boa lenda, seu envelhecimento é algo que não nos é possível constatar. Na verdade, não há envelhecimento, o camarada não admite a vitória do tempo. E a admitiria por quê? As árvores escaladas, a nova casa levantada no muque, os consertos improváveis de bugigangas, a voz poderosa, o sono que nunca parece vir. Mesmo os seus filhos - todos amigos meus - não estão habituados a sentir o seu vigor. Dono de uma verve marcante, nada nada passageira, não deixa que a firmeza esconda a afeição que distribui aos baldes. Autor de uma das frases de antologia da cidade ("Alienígenas? Meu Deus! Vejo pencas deles todos os dias por aqui!"), Godopox permanece fodão, atento e com o portão de sua casa aberto para a acolhida da rapaziada que insiste em não deixar as boas armas no cofre. A água que lhe refresca as entranhas é de uma fonte profunda.

Friday, June 24, 2005

A morte de Wagnelson encerrou o ciclo do Laricão, pouco menos de um ano depois da catártica abertura. Polenta já havia partido por conta de sua faculdade de turismo, e Binho já me sondara a respeito de um possível interesse pela sociedade no bar. Eu amava o local, mas ele era passado. Não devia e não podia endividar-me em benefício de algo que perdera a mística. A desorientação foi geral, garotos perdidos zanzavam pela cidade e até mesmo passeavam pela calçada do velho e fechado espaço. Cheguei mesmo a observar grupinhos reunidos em redor de algumas cervejas, bebuns sentados no chão a olhar para a porta cerrada. Fim de festa, completo e melancólico. Era setembro de 1995.

O resto do ano seguiu morno, sem tesões especiais. Bar nenhum conseguiu ponto fixo no coração da rapaziada; algumas tentativas de reedição do clima despirocante resultaram patéticas, ficava clara a barra forçada e a angústia. Não que os excessos fossem deixados de lado e os lares permanecessem cheios. Bater pernas por altos e baixos dava algum descanso ao peito, o sal das praias do centro endurecia os cabelos e animava os cérebros. O verão estava próximo e alguma coisa TINHA que acontecer. Como em Guarapari as maluquices coletivas parecem criar uma onda vibratória única a conspirar pela derrubada do tédio, algo aconteceu.

O Doce Gula era um projeto que: a – tinha tudo pra dar certo; b – tinha tudo pra dar errado. A opção a justificava-se pelo ponto, excelente, uma esquina do centro que fervilhava com a chegada da alta estação. Junte a isso a venda de um produto com saída certa na hora do abafa – sorvete - e a concorrência numericamente fraca: bingo!

Mas analisemos a opção b: os proprietários da bagaça e seus amigos e conhecidos. Não, não eram bolinhos não.

Zé, Márcio e Ronaldo, todos da família Zan, tomaram a decisão maravilhosamente louca de negociar cervejas. Saquem só: hordas de porralouquentos à procura de um bar encontram o Santo Graal no point armado por três primos amantes das garrafas de 600 ml. Em muito pouco tempo a sorveteria transformou-se no buraco mais quente do Triângulo da Cachaça. E, obviamente, passou a ser cada vez menos agradável pro potencial público amante dos cremes gelados encarar a turma da eterna garganta seca.

Mas, bem, claro, se as cervejas atingiam uma vendagem bacana, em grande parte sustentando (com a ajuda de tira-gostos classudos) o esquema, a avalanche de fiados (companhia certa, pois) - e suas contas gigantescas - traria claramente uma dor de cabeça em um prazo médio. Não deu outra, camaradas.

A inadimplência cervejeira bateu no teto, os sorvetes não bancavam o negócio e a solução imediata/urgente estava no enterro da brincadeira.

Com o fim do verão, cabia a cada um que trazia nas vísceras o sino do inferno buscar novos aditivos roqueiros. Mas essa história conto depois.

Thursday, June 09, 2005

Como qualquer balneário que cospe gente pelo ladrão nas altas estações (julho e verão, claro), Guarapari possui duas realidades (identidades) simultaneamente distintas e semelhantes: uma cidade banalmente lotada, com os mesmos atrativos queimados de um município que suga o possível da turistada, e um espaço estranho pleno de psicóticos, viciados, trambiqueiros menores, traficantes de mentes, garotas brilhantes e uma incrível máquina de produzir acomodações. Um local que, paradoxalmente, traduz todo o universo em suas pequenezas únicas. É esta Guarapari que me atrai, é esta Guarapari que monopoliza minha atenção. Como em um trem-fantasma, você sabe que a sua diversão depende da excitação e do medo.

Sunday, June 05, 2005

Nas tardes de segunda costumo ficar em Guarapari, entre as aulas da faculdade. Vou de carro às seis da manhã, retornando às dez e quarenta da noite. Apesar de toda a beleza do balneário, dificilmente vou para a praia. Aliás, fiquei um ano sem sentir a água salgada, do janeiro de 2003 ao janeiro de 2004. Estive três semanas atrás em uma das praias, mas não me banhei. Pois bem, ontem me pus a andar pela Areia Preta. Deixei que as ondas, movidas pela maré alta, molhassem pés e pernas. Caminhei sem razão, de um extremo ao outro, e retornei. Lentamente, algo em torno de meia hora, quarenta minutos. A relatividade do tempo impressiona, realmente. Foram mais de vinte anos. Mais de vinte anos em curta caminhada. O dia estava bonito, estranhamente bonito, como é próprio dessa curiosa cidade. E foi um peso no peito. Uma epifania e uma revisão. E uma porrada de cicatrizes.

Feitas a partir de centenas de noites/madrugadas desafiadas em um jogo entorpecido, difuso, mais sombras que luzes. Vi gente que se foi, deixando seus pedaços em pedaços maltratados do lugar. Observando aquele paredão no final da praia, base de um belo edifício que ali se aninha, questionei se as almas que deixaram a carne marcaram indelevelmente aquele concreto. Tudo há de se perder no vento do final da tarde.

As farras épicas em meu apartamento, em que comunhões espontâneas se deram, sem cobranças e dúvidas. Algumas vidas justificadas por uma noite.

As tomadas de estradas, carros rodopiando sem guias, perdidos. As boates intermináveis, as festas sem rumo nas casas incautas, atacadas sem aviso.

Os bares em que habitualmente demos o nosso melhor e o nosso pior. Simplesmente deixando que fosse. O homem raras vezes é tão autêntico. E raras vezes é tão generoso. Muitos limparam lágrimas com as mãos sujas.

As porradas, grotescas, inconseqüentes, necessárias vez ou outra. Únicas.
Não quero que tudo se perca. Gostaria que esta história fosse escrita. E já não está escrita?

A pena que a escreve tem o sangue dos amigos sugados pela violência. Daquele irmão que caía em um suicídio-automóvel involuntário, enquanto estava eu a dormir na praia defronte do primeiro de janeiro.

E tem o suor de oito anos de amores maravilhosamente frustrados. E do amor que nunca se fez.

E toda a cocaína que consumimos e o álcool que bebemos/vertemos e o tabaco e a maconha e a dor e o desespero e os abraços carentes e os olhares insanos e a alegria de se saber inteiro pra repetir e repetir e repetir. E o sexo e o tesão e todas as trepadas descompromissadas e os encontros falsamente casuais. Guarapari é a cara enfiada no real, fantasiando.

E é passado e é agora e é o nada pelo nada. Guarapari são milhões de anos.

Era o fim da andança, pois.

Era o fim da areia. O começo da escada que me levaria para o alto. Pra fora daquilo. A catarse feita, sem avisos.

Escureceria aos poucos e em pouco e tomei a direção do apartamento. Na cabeça, a idéia de que a vida pode ser terrivelmente bela, insuportavelmente bela. Bela, má, sacana. Mas estou vivo. E não tenho medo.

Feliz. Feliz pra caralho. E morto, morto como nunca. Às quatro da tarde de ontem bebia a primeira gelada, acampado na casa de meu cunhado também tricolor pra ver o Fla-Flu decisivo. Vitória nossa, partimos pro (fechado e lotado) Triângulo das Bermudas. Lá, com a fitinha cassete da Rádio Globo reproduzindo a cada cinco minutos os gols (tricolores, claro) do clássico, buscamos outros paraísos artificiais. Do líquido ao pó foi um pulo. E pulo dei pra saltar as grades de minha casa e alcançar a minha cama. Como disse, morto mas feliz. Não têm sido de calmaria meus tempos recentes. Este ano levou ao topo todos os excessos. São novos parâmetros de loucura e despirocação deslavada. O contato com a cocaína, sem dúvida, exacerbou a porralouquice em Guarapari. Coca em quantidades estúpidas, digo. Cheirada, esfregada nas gengivas, lambida. Dentro de carros, dentro de casas, em banheiros esculhambados. Idas regulares aos pontos boqueiros, buchinhas dispensadas na tensão pré-blitz, correria para recuperá-las pelo alarme falso. E toda barafunda possui o seu ápice. E este se deu (percebam, havia de ser lá, por tudo) em meu apê. O apartamento vivo, aquele do sexo pra lá de inseguro, dos vômitos da janela, do compartilhar do cálice sagrado, da quase morte-suicídio (conto depois, relaxem). Noite-madrugada no Laricão – um bar que já é história, um clássico boêmio instantâneo -, roxinhos (fanta uva, gelo, rum e limão) em quantidade (sete, copo fundo, por favor. Brigadú!, Léo Gordo!), um maço de cigarros por conta própria e gritos lancinantes de histeria alcoólica, tudo buscando o único braço navegável neste rio maluco: doses maciças do mefistofélico pó branco, generosas trouxas de maconha, uma garrafa de conhaque, maços/maços/maços de tabaco e latas/garrafas da santa loura. Sete almas em um quarto de porta cerrada, som-barulho e vento litorâneo chegando manso. “Dois de vinte”, disse F.; “Dois de vinte o quê, mermão?”, perguntei incrédulo e marrento; “Dois papéis de vinte. Vinte pra gente, vinte pra minha tia. Encomenda familiar, manja?”, respondeu de pronto. Bem, pensei na hora que um de vinte já seria mais do que o recomendável, somando toda a bagaça. Tampa de vidro, cartão, caneta e rolo de nota. Trabalho duro. Vinte nas cabeças e nova visita ao bairro do brilho? E os vintinho da titia? Por que não esticá-los e depois conversar com a dona? Não precisei completar a frase. Mais um papelote de vinte de cocaína correria narebas acima. Garrafas secas e bocas amarradas, desço pra acompanhar o resto da rapaziada em sua partida e retorno pro... Sono porra nenhuma! Bate a nóia, pego a carteira e, ainda com a roupa da esbórnia, parto com meu Millezinho pra Vitória, casa dos velhos, abrigo bacana. Chego em um sábado de sol firme, surpresa total. Minha mãe logo pergunta a razão da chegada repentina. Disfarço, recomponho-me e digo que dormir em casa é o melhor desde sempre. Sei que ela sentiu algo diferente. Conversaremos sobre tudo, no tempo certo. E levei duas horas pra acomodar-me e atingir o repouso. A coca, o conhaque, a cerveja, a marijuana e o segundo maço de Hollywood finalmente sossegavam. Meu corpo já não era meu templo.

Guarapari não começou há pouco para mim. Freqüento o balneário desde 79, quando da mudança de minha família para estas terras. Mas 86 marcou a primeira mudança significativa em minha relação com a cidade. O apartamento adquirido por meus pais estabeleceu a base ideal para os rocks veranistas e feriadeiros. No entanto, permaneci um visitante até o ano de 89. Lá, ao iniciar o namoro com uma colega de classe da UVV - que duraria cinco anos -, estabeleci-me por aquelas plagas. E iniciei uma série de amizades que me renderia alegrias (muitas) e decepções (algumas), com as portas escancaradas de um novo mundo.

As coisas foram bem, muito bem nos dois anos e meio iniciais. Noites eternas, furiosas, dilacerantes até. Amor, paixão e solidariedade em um mesmo fervente caldeirão. Visceral, pra usar uma palavrinha fácil e exata. Incrível como um local assume feições místicas quando nele você se embrenha com gosto e vontade. E tudo funcionando como um providencial descanso mental-espiritual dos ritos roqueiros de Vitória e Vila Velha. Precisava de um amor, e ele veio. Precisava de amizades zeradas, e elas chegaram com força. Nada veio por acaso, acredito. Ainda hoje acredito.

1992 deu no meio de minha lata, em um prólogo assustador da ressaca que se aproximava. A passagem de ano corria bem, ainda que estar na virada em um engarrafamento na Praia do Morro estivesse por completo fora de nosso planejamento. Tudo ok, vale a festa, a garrafa estourada, os abraços na turma e o beijo na boca de quem amo. Ela não quis, entretanto, esticar até a Lua Azul. Cedeu-me o carro de seu pai e então partimos, eu e seu primo, para o encontro com a galera que havia se espalhado por todos os cantos. Tumulto pra entrar, gente por demais para o espaço. Algumas cotoveladas e estabelecemos a base no deck da boate. Serginho, brother nosso que curtia a fossa de um namoro há pouco encerrado (com a irmã de outro irmão, Dudu), multiplicava as miniaturas de garrafas de uísque que brotavam de seus bolsos. Uma catarse pessoal especial (dele) e coletiva (do resto da plebe). Foi espetacular. E não acabaria assim. Logo iniciaria, tal qual a personagem de Mickey Rourke em “Coração Satânico”, minha descida mais profunda ao inferno. Do qual sairia por completo somente quatro anos depois.

Ronney (o primo de minha namorada) me pega pelo braço e fala, esbaforido: “Caio, deu merda! Serginho saiu daqui voando, transtornado”. Digo a ele que corra lá pra fora e não o deixe pegar o carro, enquanto parto pra pista de dança pra dar o alerta. Não rolou. Serginho já havia partido. Sem notícias, sem celulares, sem pistas, continuamos na boate, e amanheci na areia da Praia dos Namorados, sem camisa, sol na cara, de frente pro morro do Guarapari Center. Desconhecia o que aquele point me reservara.

Vou pra casa cambaleante, jogo-me na cama de casal e sou despertado logo depois por minha irmã, que dizia estar na linha a minha namorada, tensa. Ressacado e zonzo, ainda assim pensei logo em Sérgio. Batata. Ela logo soltou a notícia: ele morrera há poucas horas. Caíra (ou jogara-se de lá com ele, nunca saberemos) com seu carro do maldito morro, acelerando-o até que fosse rompido o último e pequeno obstáculo na direção das pedras da praia. Naquela tarde seria velado na casa de seus pais. Não quis sequer olhá-lo no caixão. Parte de minha adolescência havia partido.

Foram seis meses de cão. Formado nas duas faculdades que acabara de cursar há menos de um mês, olhava para a frente não com a expectativa esperada. O peito doía, e mesmo a presença constante de minha namorada não abafava a dor aguda. Sem emprego e com a ausência de Serginho, a depressão arrebentou a minha estrutura, já desgastada pelos rocks que não cessaram em todo o ano de 91. Apartamento lotado, farra todos os dias da semana, nenhuma hora pra encerrá-las e inconseqüência ampla, geral e irrestrita. Posso contabilizar um mínimo de trinta festas e churrascos, deixando de lado as reuniões de menor porte. Falo apenas do apartamento. Nas ruas, a quebradeira seguia o mesmo ritmo. Era o começo da virada em meu namoro, que duraria ainda dois anos. A boêmia venceria, afinal.

Voltando ao abissal 1992, o trabalho como professor substituto na faculdade de Guarapari e na UVV me ajudaria a passar pela tormenta. Aprendi, da pior e única maneira possível, que a depressão não é uma frescura, um capricho, um estado de inércia. Depressão é muito mais, é porrada e independe de uma simples força de vontade para a sua superação. Quis morrer, e queria realmente que alguma coisa me levasse. Não havia sorriso, sexo, bebida ou amizade que me bastasse. Foi um teste de sobrevivência, e hoje percebo isto claramente. Uma merda daquelas.

Saindo do estrago causado pelos excessos e pela morte de Serginho, bem, voltei aos excessos. Até 94, as coisas partiriam para um nível estratosférico de lesações, porradarias, acidentes automobilísticos...

Acidentes automobilísticos...

De dois escapei, já um veterano de estragos em carros (dos dezesseis anos até então, batera com relativa gravidade duas vezes, e uma montanha de outras com menor impacto). No primeiro deles, em dezembro de 92, voltava de um bar-boate em Meaípe acompanhado de dois brothers, dirigindo o Millezinho de meu pai. Bêbado e com a estrada molhada, tentei fugir de um pedaço de madeira no meio da pista, joguei para um lado, derrapei, fui barranco abaixo e parei somente no lamaçal, o carro de frente para a rodovia, o fundo projetado e apenas a segunda marcha disponível. Sujando-nos e com a ajuda de um conhecido que por ali passava e buscou no centro uma corda, tartarugueamos até a casa de um amigo. Ligação feita pra casa, meu pai atento responde, calmo: “Velho, tenho duas notícias: a melhor, primeiro: o carro era (e é) o teu presente de aniversário; a pior (em termos): cuide dele e acione o seguro, bancando a franquia. Hora de assumir essa responsabilidade”. Ele estava coberto de razão.

No segundo, o negócio azedou. Vinha de uma farra na casa de amigos, carona no carro do mesmo brother que me acompanhara na saída da estrada. Era a véspera de um feriado em 93, e tive a infeliz idéia de tentar refrear o seu pé direito dizendo que aquela carreta não andava, melhor desistir. Bebaço, pisou ainda mais fundo, entrando na curva da saída da ponte perto dos 80km, já pensando na merda que vinha e tendo reduzido. A pista escorregadia fez a caranga patinar, atravessar o canteiro que separava as pistas, subir a calçada quase lateralmente e espatifar uma caixa telefônica. Um poste pararia o bicho, de frente. Sem cintos, pude apenas gritar para o irmão segurar firme. Ele arrebentaria o rosto no volante (que guardaria um dente seu) e apagaria. Eu, ainda consciente mas arrebentado pela violência do choque, fui levado por um conhecido para a casa da namorada, alta madrugada. Recusei veementemente uma visita ao hospital próximo. Um vacilo, sei. E chegar na casa da mulher com álcool saindo pelos poros e arregaçado pelo acidente não contribuiu nada para o prosseguimento do relacionamento.

Ah, e meu amigo? Alguém o levara para o hospital. Sabe-se lá como não nos inutilizamos permanentemente. Vi o carro duas vezes, passado o susto: na PM e na concessionária. Perda total e o painel, empurrado pelo motor, sobre o banco. Nossas pernas? Intactas. O Fiorino ficou do tamanho de um 147.

1994 apresentou-se com as armas da distância nas mãos. A não saída de minha namorada na noite do réveillon sinalizava a tensão máxima a que havíamos chegado. Uma conversa em sua casa (não) resolveria tudo. Primeiro de janeiro, pé na bunda e um verão pela frente. Verão-Guarapari-cidade lotada-ex-namorada assediada-stress máximo. Inferno dez vezes.

O carnaval em Iriri pela terceira vez, a primeira sem ela, devastou-me por completo. Cinco noites indo e vindo, carro cheio de amigos, cada um com a responsabilidade de uma rodada de direção. Já na sexta um acidente na estrada - com seis mortos - apontava o que seria o meu feriadão de Momo. Estar na fossa, prestes a encontrar a ex e ainda tendo que encarar a visão de corpos estendidos no acostamento... Não podia dar certo.

E não deu.

Cotovelo inchado, cachaçada extrema e nenhum contato com o sexo oposto. A possível visão de minha companheira de cinco anos com algum sujeito não ajudava. No último dia, terça, deixei toda a turma pra trás e parti - trêbado, sem cinto de segurança e com o banco do motorista deitado (dormira ali) - pra Guarapari. Blitz da polícia (e havia!)? Não sei como, mas passei intacto por ela. Guardava meu carro, ainda, na garagem do prédio de minha ex-companheira. Deixei-o aberto, rádio no talo e chave na ignição, para o espanto (bem, espanto não, ele me conhecia) do porteiro de plantão. Enfiei-me debaixo do chuveiro de praia, roupa e tudo. Soube das mancadas, logicamente, no dia posterior. Pela minha ex e sua irmã, que encontrei na praia de Meaípe. Ela não podia sequer me ver, furiosa com a minha imprudência. E levei mais de meia hora pra achar o meu carro no começo da tarde. Lembranças? Quais?

O que fazer depois de cinco anos de namoro? Falo sem namorada, claro. Bem, estava sem ela, mas não sem os amigos. E estes continuavam com sede.

O ano começara sem minha companheira e com novo emprego. Trabalharia na Pestalozzi de Vila Velha, tempo integral nas costas. A semana útil (eheheheheh, útil...) por estes lados, o fim de semana da esbórnia (não que ela não acontecesse em outros momentos, lógico) em Guarapari. Sem namoro e os laços de amizade firmes como nunca. O bicho pegaria mesmo a partir de agora.

Passado o verão da angústia (em que parti ao encontro dela em Juiz de Fora, sem aviso e sem maiores preparativos, em uma tentativa espontânea de reatamento – que não consegui, adiantando em um dia o meu retorno) e com o trampo em andamento, caí matando nas putarias do balneário. O apartamento agigantou-se, festas surgiam constantemente e os botecos do centro e da Praia do Morro tornaram-se cada vez mais familiares. Depois do point Trucks (Muquiçaba), era a hora e a vez da Taberna, casa de dois andares com o seu piso inferior transformado em bar dos mais bacanas, gente de Vitória, Vila Velha e até mesmo BH e RJ visitando-o mesmo na invernada. Muita, mas muita coisa ali foi (des)construída. Carros abertos com danças tribais em seu redor, vagabundas levadas levianamente pra casa (numa destas ocasiões, já aboletado em meu quarto do andar superior com uma delas, fui obrigado a interromper a ralação pra socorrer uma de suas colegas, colega esta que arranhava a porta do quarto e gritava por ajuda repetidamente, sua voz sendo soterrada pelas gargalhadas alucinadas do resto da turma. Não transei, as minas saíram esbaforidas e a solução foi permanecer na bebedeira) e brigas.

Brigas.

A pior teve arma sacada, chute cinematográfico na mão armada, cabeça chutada e olhos revirados, em uma vingança por porradaria passada. Nada, nada bonito.

E em uma das mesas da Taberna, cercado por Saulinho (hoje proprietário do badalado Tonteria), Zan, Luís Henrique e cia, ouvi de Binho – que apontava um local a trezentos metros dali – que seu bar abriria em pouco tempo. E que seria inesquecível, sem dúvida.

O nome da fera, Laricão.


Profecia cumprida, brô...


E dele não mais preciso falar (algo que fiz em post aqui publicado). Acrescento apenas que lá passei o carnaval de 95, observando a passagem quase incessante de carros no caminho de Iriri, divertindo-me e embebedando-me maravilhosamente. Ri um bocado (e preocupei-me) quando soube que Leo, brother e garçom de lá, estava licenciado por conta de seu espancamento em um show do Pato Banton nas Três Praias. O que acontecera? Findo o espetáculo, subira no palco e furtara algumas peças disponíveis da bateria. Visto pelos seguranças, foi perseguido, alcançado e... Corretivo no rapaz. Nada que chame muita a atenção em Guarapari, enfim. E que um dos esquemas da coca consistia em cheirá-la no banheiro e já deixar uma carreira batida em um guardanapeiro, este estrategicamente disposto no chão ao lado do vaso sanitário. Você entrava na ordem combinada, cafungava a sua cota e preparava a do amigo que viria logo depois. Simples assim.

Como simples foi chegar por lá em um começo de noite e ouvir de Binho que algo me esperava na chapa de sanduíches. Um pedaço de bacon, uma carninha, uma cebola esperta? Tsc, tsc, não, não. Uma pequena coluna do diabo branco. Com gordura e tudo.

A conta da desgraça não tardaria.

Fim da alta temporada e a depressão pelo encerramento da festa e por um ano que finalmente começaria. O álcool, a cocaína e a maconha sorriam e esperavam mais.

Mais não dei.

Foi tamanha a desgraceira em que me envolvi que somente uma solução radical transformaria aquele estado de coisas. Eu disse radical. Nada de paliativo. E rasguei mesmo, sem piedade.

Sem despedidas e longos diálogos, arrumei todas as minhas coisas, empacotei-as, negociei o envio de meu carrinho em um caminhão-cegonha e parti pra Fortaleza, Ceará. Ninguém, com a exceção de meus familiares mais chegados, sabia de meu destino. Era preciso.

Fiquei na casa de meus tios, necessariamente isolado. A cidade era velha conhecida, pois morara lá três anos em duas oportunidades. Foram longas as madrugadas no quarto, som baixinho e uísque aberto, maço de cigarros pulmões adentro. Peladas de basquete e passeios ocasionais oxigenavam-me um pouco. Mas a angústia não me abandonara, não. Três meses depois, retornei tão repentinamente quanto parti.

Festa na volta, perguntas mil e um novo ciclo de despirocações.

Como quando amanheci com a mão direita detonada por completo, a roupa cheia das cinzas dos muito cigarros consumidos, a desolação da ressaca tomando conta de tudo. Lembrei-me, então, do pequeno desafio que empreendêramos: verificar, em um dos quiosques da Praia do Morro, quanto tempo cada um suportaria com uma das mãos segurando a lâmpada acesa há horas, sem frescuras. Imaginem... Sem contar que, no meio do porre, esquecera-me totalmente de levar um amigo à rodoviária - como prometera. E foi bom saber que outro irmão preocupara-se comigo ao ponto de seguir-me, com seu carro, até a rua de meu apartamento. Eheheheheheheh, serviço de escolta da brodagem...

Não perdia uma chance. Tudo era mais urgente, imprescindível, único. Nada de obstáculos. Nem mesmo o fato de uma estressada menina ameaçar chamar a polícia (e ser detida por um amigo alucinado). Por que, se as suas amigas divertiam-se conosco no apê, meu Deus? Bem, o salto de P. para o sofá e a sua frase: “Agora vamos conversar!” não colaborou, reconheço. Mas o medo foi desproporcional. Foi sim.

E foram todas embora por conta da maluquinha. Ereções desperdiçadas, pois.

Bem, e nada seria completo sem uma participação mais efetiva de nossa polícia.

Noite de dia útil no Laricão, estava lá sem muitas expectativas e na companhia de alguns colegas. Passa um e oferece o primeiro baseado. Recuso. Passa outro e oferece o segundo baseado. Recuso. Nunca fui um consumidor regular de maconha. Ocasionalmente fumava, e bote ocasionalmente nisto. Bem, passa então mais um e oferece o terceiro baseado. Vou, então. Eu e C., beira do mar e, já no final do consumo, a chegada sorrateira dos canas. Armas empunhadas, gritos pra todos os lados e o cigarrinho rapidamente dispensado quando desconfiamos da movimentação. A correnteza levaria o danado embora.

Tranqüilos, esperamos o final da dura pra sairmos fora. Afinal, como os próprios tiras disseram, faltava o flagrante. Por pouco tempo.

Na tentativa de achar seus documentos, C. revira o bolso e de lá sai um “enroladão bacana”, maravilhoso entre seus dedos. A polícia tinha o que queria.

Passeamos um pouco na viatura e tomamos a direção da delegacia. Lá, a identificação (não por mim, que não faço coisas do tipo) de meu velho (pai) pelo civil de plantão livrou-me de cara do boletim de ocorrência - e dos presos famintos, eheheheheh... Mas não livraria C., não fosse o meu bater de pé (“Se eu saio, ele tem que sair. Isto ou nada” – vai ser maluco assim no inferno, camarada!). Os militares, putos, disseram que então nós voltaríamos andando, pensando nas nossas cagadas cotidianas. Andando é o caralho! A galera que percebeu a nossa ausência nos achou, providenciando um retorno menos cansativo.

Como “consolo”, meu esquema estava por lá e recebeu-me de corpo aberto. Beijos e amassos fizeram-me esquecer o episódio.

Vixe, não falei do show dos Stones no Maraca.

Na verdade, não tenho muito a dizer. Só que não esperei companhia e cheguei no Rio com três dias de antecedência, instalando-me sozinho na casa (então vazia) de minha avó. Pulei, suei e bebi pra caralho; encarei uma caminhada, um táxi, um ônibus e mais um táxi pra chegar em casa; e voltei com um sorriso escancarado, absoluto. Clássico, clássico, clássico.


Arf!

Está na hora do almoço, diz a minha mãe, convidando-nos para a mesa. Estou precisando deste aconchego.


Até.



Caio, junho de 1995

Thursday, June 02, 2005

Mais que um ponto de encontro etílico-roqueiro, uma instituição boêmia. Era final de 94 em Guarapari, novembro, e o monstro estava sendo criado. O verão de 95 não sabia o que o esperava. Seus donos eram Polenta (Sandro Mileipe) e Binho (simplesmente), os dois se aventurando na busca de uma real alternativa para aqueles que queriam paz, boa música e cervejas honestas. Paz na calmaria de um bar lotado de semelhantes, boa música na fuga dos lugares comuns de sempre, cervejas honestas por sua boa combinação temperatura/preço. Tudo acompanhado de um serviço prestado por amigos, gente que amava estar ali, nada mais. Parece pouco. É o que basta.

O nome era mesmo este: Laricão - direto, conciso. As pinturas nas paredes e as bandeiras entregavam a dedicação inicial ao reggae, logo dividindo o espaço com o rock, com o blues e com qualquer gênero que não causasse repulsa coletiva. A turba contemplava todos os tipos/tipinhos: os pára-quedistas noturnos, que ciscavam por lá enquanto as suas boates queridas não abriam as portas; os turistas exploradores, que corriam atrás de algumas histórias para contar em seu retorno; a garotada que iniciava o teste de seus hormônios; os malucos adotados pela cidade, inofensivos e indispensáveis; e a grande massa, formada pelos locais que transitavam há anos em uma desesperada e silenciosa procura, procura de um pedaço que os acolhesse sem restrições, sem preconceitos, sem medo. A peregrinação cessara.

Cessara porque o espaço era democrático, aberto, com doses avassaladoras de tolerância e humor estável. Não que fosse uma zona: a elástica paciência de sua dupla administradora não dispensava a presença de "Soneca", enorme bastão de madeira que repousava no balcão, dissuadindo os brigões que sempre surgirão.
O volume do som era ditado pelo estado de confusão mental de todos, o que implica dizer que o começo da madrugada era quase sempre ensurdecedor dentro do bar. Na grande calçada, simultaneamente, encontrava-se com freqüência Álvaro, cantor/violonista de Campos, achando refúgio e sustento. Drogas? Obviamente. Aporrinhações delas decorrentes? Pouquíssimas, muito menos que aquelas verificadas em quaisquer dos locais cultuados pela turminha da acomodação. Era outro o clima.

Os fatos, as lendas? Que repousem em nossas cabeças (minha, de Paulinho, de Bruninho, de Mariquito...) serenas.


Alguns bares permanecem em outra dimensão.

Wednesday, June 01, 2005

Bruninho, penso que aqui de Vitória somente eu e Paulinho podemos entender de fato o que você está dizendo, e isso me traz água aos olhos, muita. "...moro sim num paraíso cheio de gente dizendo adeus, cheio de prédios vazios..." Meu Deus, isto diz muita coisa ao meu coração, minha reconciliação com Guarapari será lenta, tudo é muito difícil pra mim, pra todos nós que vivemos aquela porra toda com o coração nas mãos e a alma aos saltos, sempre o sabor do risco nas bocas e a ansiedade conduzindo-nos. Sei que há uma geração nova tomando as rédeas da cidade, e certamente ela está vivendo/descobrindo coisas que vivemos/descobrimos quinze anos atrás, portanto o saudosismo é uma merda inútil, mas também acredito que alguma coisa se perdeu, que tudo está um pouco fácil demais, que algumas utopias (ainda que identificáveis na época) não estão mais conosco, que a vontade de romper as barreiras está aqui mas está adormecida. Sempre penso naquele carro de Serginho rompendo o espaço no Guarapari Center, e vejo que naquelas pedras mais que uma vida se perdeu, ali estava enterrado o sonho de uma turma. Às vezes tenho a vontade de sentar-me ali, quieto, uma cerveja em uma das mãos e a cabeça enterrada nas pernas, os olhos cheios de água por tanta gente que partiu, tanta coisa que perdemos no bater daquelas ondas. Gostaria de subir no prédio mais alto da cidade e gritar, chamar toda a gente que ainda acredita, convocá-la e dizer que ainda temos uma chance, que essa cidade não é (só) um grande cemitério de esperanças. Cada passo meu por aí é um carregar de mil toneladas, poucos sabem quão difícil é...

Tuesday, May 31, 2005

Não sei quantas vezes subi e desci esta rua, são cinco da tarde e não faço outra coisa desde o almoço. Não, almoço não, não como coisa alguma desde a noite de ontem, um sanduíche qualquer que empurrei goela abaixo sem sequer senti-lo. Emagreci alguns quilos, ainda não sei quantos, mas todos dizem que emagreci, portanto deve ser verdade. Não tenho me olhado no espelho ultimamente. Aliás, pouco tenho realmente feito. As aulas na UVV e na Faculdade de Turismo de Guarapari correm como se eu não estivesse lá. Creio que não estou mesmo. A Cristiane tem me ajudado, ela sabe que dor é esta, uma parcela está lá com ela. A bebida não tem ajudado muito, ou tem ajudado bastante, não tenho ainda um ponto de vista sólido a respeito. Maio está chegando e esta sombra não passa, parece que ficará estacionada cá dentro um bom bocado. Devia estar feliz, por que não? Duas faculdades encerradas no final do ano passado, uma namorada que me quer sinceramente e... Não, não está funcionando, já tentei este jogo e sei que quebrarei a cara. Estava assustado em dezembro passado, um tanto eufórico também, as possibilidades pareciam saltar em minha direção, quem sabe até não poderia casar-me e estabelecer-me definitivamente por aqui, a rede de amigos próxima, um ou dois empregos como docente, o turbilhão adormecido etc. O 31.12 encarando o começo de madrugada prometia, estávamos engarrafados na Praia do Morro, dois casais e dois amigos aos pulos e berros, todos aceitando o fortuito da situação e projetando um 92 bacanudo. A Cris não quis emendar a badalação com a festa na Lua Azul, boate que nem era (é) a minha praia, mas que estava balançando o espírito da rapaziada. Lembro-me que nos despedimos na entrada de seu prédio, Ronney (seu primo) subiu e desceu entregando-me a chave do carro. Pois é, meu futuro sogro confiava em meu taco a ponto de passar-me o carro mesmo sem a presença da filha/namorada. A cerveja batia devagar, sacolejava um pouco meu cérebro, eu sabia que o espaço a ser preenchido comportava ainda aquelas pequenas garrafas de uísque que trazia nos bolsos da calça, os seguranças da boate nada sacariam com aquela confusão, aquela onda de gente que parecia sumir assim que a porta era deixada pra trás. Não foi preciso marcar nada, sabia que todos estariam lá, era o destino natural de uma turma que estava convencida que aquele point reuniria e resumiria e condensaria o porrilhão de tesões daquela passagem de ano. Joguei o carro no barro, bati a porta e já estava mais chapado com a visão da entrada abarrotada, alguns amigos e conhecidos identificados e a música estourando dentro do peito. Atravessamos o deck e abrimos espaço até a pista com os cotovelos e a raça. Bruninho Jesus, Dudu, Luiz Henrique, Zan Zan, Serginho "Jeguinho" (meu cunhado), Serginho Butti etc, alguém não estava lá? Podia sacar nos olhos e nos cheiros daquela rapaziada que o 91 esporrante-porralouquento esbarrava ali em seu ápice, um épico de gala prum ano em que tantos descobriram tanto e tantos, um período em que instalei Guarapari em minha´lma, em que deixei no acostamento da estrada uma Vitória e uma Vila Velha que sabiam a mofo, que nada mais me diziam. E aquela festa esfregava em nossas caras o absurdo da beleza de simplesmente estar ali, o estar ali significando por si mesmo. Estávamos construindo a nossa pequena-bela-grande pra caralho história e definindo-nos, não havia um molde, uma perspectiva clara, porra nenhuma, tudo podia ser feito e efetivamente cagávamos tudo e mesmo assim as gargalhadas eram nossas, tudo estava perto o bastante pra que queimássemos nossas mãos ao tentar o toque, mas aquele fogo era nossa motivação, sacam? Como se a mão contraída pelo calor pudesse funcionar melhor, sem medo. Ok, eu era um pouco mais velho que a média dos irmãos, mas o sentimento de risco movia a todos indistintamente, e era a sua percepção que funcionava como liga. As garrafinhas sumiram na pista de dança e não havia mais relógio, passagem de ano, formaturas e que tais; lembro-me claramente das expressões faciais, das palavras mastigadas e do suor: era a vida acontecendo a cada segundo. Quantas vezes a vida acontece segundo a segundo, sem interrupções? Quantas vezes podemos sentir tal coisa? Conheço quem considere essa montanha-russa um segredo único. E era nossa mais uma vez. Foi quando Serginho surgiu insano. Percebi o tamanho da merda no ato, aquilo que muitos consideraram mais um prato de despirocação na grande refeição de despirocações do momento. Pedi a Ronney que o segurasse no estacionamento, apenas o tempo que (eu) necessitava pra deixar um recado, encontrá-los e jogá-lo no nosso carro. Daí bastaria deixá-lo apagado no banco de trás e depois alguém o levaria em seu carro pra casa. Ou ele mesmo na manhã ressacada faria o serviço. Mas não chegamos a sair da boate. A segurança prendeu-nos tempo suficiente pra que Serginho conseguisse bater a chave no carro e disparar. Ronney não sabia o que fazer, esperou-me voltar e nesse meio tempo nosso brô desapareceu, um gorila profissional ainda sorriu e nos disse "que poucas vezes viu alguém partir tão rápido de uma boate". Bem, como o ocorrido não era novidade alguma, e vez ou outra um de nós sumia sem maiores delongas apenas pra nos contar depois o fim de noite em algum boteco, relaxamos o possível e voltamos à bagaça, a certeza idiota de que aquilo seria mais uma boa historinha roqueira, um causo pra ser consumido em redor de uma gelada na noite seguinte. Mas sabíamos que era diferente, todos sabiam. Porque ele saiu de lá com a cabeça plena de bolinhas e álcool, porque o coração do cara não batia no nosso compasso, porque a mulher de sua vida/momento o deixara de lado dias atrás e estava lá, boca na boca de um terceiro. A mistura que todo homem quer evitar, aquele encontro de circunstâncias/paixões que não queremos olhar nos olhos, a podridão dos planos conjuntos jogados na calçada e expostos por inteiro. Uma dor que eu não conhecia, panaca-babaca que fui-sou. Poucas horas depois estaria ajeitando a areia da Praia dos Namorados; buscava um travesseiro, a roupa colada e o sol pegando-me sem óculos, o uísque e a cerveja poros afora, o sorrisinho escroto de missão cumprida emoldurando sabe-se lá o que. Na segunda acordada rumei pro apê. Joguei-me na cama com o sal no corpo e antes mesmo do primeiro sonho torto fui acordado por minha irmã que dormia no quarto de cima. Consegui distinguir as palavras "Cris-Serginho-acidente" e algo me ejetou da porra da cama, a ressaca deixada em algum canto escuro. Na porta, uma Cristiane descansada e assustada chorava e me dizia que algo estava perdido. Um garoto de dezoito anos estava perdido. Um devaneio coletivo havia partido com ele. Merda, eu SABIA que aquela saída atrapalhada da boate era mais que um fragmento de desamparo, era um flash do desespero do amor distante potencializado pelas drogas da hora. Serginho dirigira seu carro até o Guarapari Center, as pedras da praia como alvo. O Fiat Uno espatifado não dava respostas, a opção pra sempre perdida. Recusei-me a ver o corpo no caixão, o velório no mesmo dia e no hall de seu prédio já me bastava. Ainda ganhamos fôlego pralgumas memórias, um tentar deixar estar que segurasse o soco no fígado. A imagem que trago mais viva ainda é a de Serginho na chuva, saindo de nosso carro pra ganhar o caminho de casa, um convite recusado pra que o acompanhássemos, os pés descalços e trôpegos. Dava pra ver as lágrimas nos olhos do cara mesmo com toda aquela água. Nunca me absolvi desta culpa. Não é um remorso fabricado, não é algo que queira exibir como penitência, juro. Guardo-a cá comigo, jogada em algum nicho de meu tórax. A minha crença no valor absoluto da (própria) vida desceu o ralo naquela madrugada-manhã. Vamos pagar todos os nossos pecados nos anos vindouros. Espero pagar todos os meus em um só dia.


Caio, Guarapari, abril de 1992

Putaquilamierda, estou dolorido pacas, me danando todo pra conseguir dormir. A porrada foi violenta demais e o carro eu já vi, pequenininho. Foi difícil acreditar que aquele monte de ferros com curvas ainda permitiu que os seus dois ocupantes escapassem. Bater com as fuças em um poste sólido como aquele não é bolinha não, companheiro. E tenho agora uma viagem pra Saquarema marcada com a minha namorada e sua família. Caralho, pegar estrada todo travado como estou vai ser foda. Mas sabia dos riscos (bem, pelo menos de parte deles) quando embarquei em mais uma madrugada de onda porralouquenta. A Cris não quis sair, era uma sexta, e mais uma vez juntei a turma e parti pra bagaceira. Bagaceira que significava naquele momento enfiarmo-nos todos na casa de André Doido e seu irmão Alexandre, bebermos até o limite e despirocarmos as cabeças. A parada da carona até lá foi resolvida com o carro do pai de Zan Zan, uma Fiorino que ele (o pai), por sorte, havia acabado de jogar no seguro. Três na cabine, o resto do bando na caçamba e pau puro noite adentro. A caralha da nossa sina é que a tchurma que estava na parte de trás, sem proteção, voltou mais cedo pra casa por outros meios. Fico imaginando aquele carango embucetado atravessando canteiro, comendo calçada, arrebentando caixa telefônica e beijando poste e a malandragem voando pra todos os lados. Porra, melhor nem pensar na cagada que seria. Depois de uma cachaçada épica, partimos pra rua sem outra companhia, Zan Zan e eu. Ele, ainda mais chapado que eu, dirigindo a desgraça do carro, já que era filho do dono. Eu, doidaço, encarando a bigorna que espatifaria o meu corpo sem pesar muito as conseqüências. E a merda é que a bosta toda chega com força, tudo junto pra foder tudo de uma vez. Estava chovendo, porra! Trêbados, alucinados, alienados, carro na mão e pista molhada na lata. Só podia dar em zona. E deu. Com força. Foi só fazer o balão que antecede a ponte pra sentirmos a adrenalina rodando o corpo todo. Ali acabei por selar de vez o resultado da zoeira quando disse ao Zan: "Porra, cara, você só pode andar isto com esta merda?". No que me restava de consciência ainda pensei (?) que essa pala pudesse tirar o gás do cara... Só estando muito doido mesmo. Ele gargalhou, falou alguma besteira que não entendi e pisou mais fundo. O carrinho 1.6 sambava na pista e comia a ponte, dava pra sacar o rio de merda que nos esperava. Porra, como fazer aquela curva sem tocar a peste daquele outro balão, logo antes do começo da descida pro centro? Não dava pra fazer, lógico, e atravessamos a parada; o Zan ainda conseguiu sei lá como curvar o carro pra sua direita e subir a calçada. Deslizamos raspando o muro, destroçamos uma daquelas caixas telefônicas e paramos, aliás, fomos parados pelo maldito/bendito poste que ficava logo antes do cruzamento. Os dois idiotas, claro, sem cinto de segurança. Gritei alguma coisa pro Zan e me segurei com o resto de lucidez que tinha. Sobrou barulho, carcaça do carro pras picas, vidros pra todos os lados e a sensação de que as coisas não dependiam mais da gente pra nada. Logo apareceu um pessoal pra dar uma força, gente espantada por encontrar naquela putaria toda dois sujeitos que ainda respiravam. Alguém (que até agora não identificamos) puxou o Zan pra fora do carro e o levou em outro carango pro hospital mais próximo (São Pedro). Tinha sangue pra caralho, posso me lembrar disso perfeitamente. Eu, zonzo que só, fui arrancado por Butterfly, conhecido da galera e que tem um point bacana na Praia do Morro. Balbuciei alguma coisa, o suficiente pra que ele me levasse direto pra casa de minha namorada. Hospital? Nem fodendo, queria vê-la antes de tudo, depois resolveria o resto. Ainda não sabia dos estragos, só sentia dor pra caralho nas costas, nos braços e nas pernas, sacava que tinha me cortado apesar das duas camisas que vestia (uma delas de lã!) e que meu rosto parecia inteiro. Cheguei à casa da Cris e o seu pai abriu a porta assustado e vendo toda a merda de cara. Manjou de imediato toda a bagaça, me botou pra dentro, deu uma checada geral no meu esqueleto e a muito custo concordou em me deixar passar a noite por lá, adiando a ida ao hospital. Fiz os curativos mais urgentes, mandei pra dentro analgésicos e antiinflamatórios e mais tarde fiz uma revisão com um médico de confiança deles. Em resumo, o meu namoro subiu de vez no telhado, não durmo direito desde então (são dois meses passando noites todo torto) e ainda tenho que encarar muita gente pra contar toda a história de vacilos. Pois é, esse é até agora o toque final na nossa sucessão de cagadas aqui na cidade. E a minha impressão, pro bem ou pro mal, é que muitas outras do mesmo nível tão vindo por aí. O negócio é esperar o esbarro.


Ah, o Zan milagrosamente escapou com escoriações gerais e um dente partido e enfiado no volante do carro. O carro? Bem, o seguro não ficou nada satisfeito com o resultado da perícia, mas bancou o preju. Perda total, rapaziada, vi o carro no depósito da PM e depois na Fiat Monauto, a desgraça ficou com o tamanho de um Uno. Sei lá como não perdemos as pernas e mais algumas coisas...

É isto.

Valeu.


Caio, Guarapari, julho de 1993.